Racismo Estrutural Aprofunda Desigualdades na Saúde Bucal da População Negra: Entenda as Barreiras e Soluções Urgentes no Brasil

Racismo Estrutural Aprofunda Desigualdades na Saúde Bucal da População Negra: Entenda as Barreiras e Soluções Urgentes no Brasil

Especialistas revelam como preconceito e fatores socioeconômicos limitam o acesso a tratamentos e agravam problemas como cárie e perda dentária, exigindo políticas públicas antirracistas e transformação no atendimento odontológico.

A saúde bucal da população negra no Brasil é marcada por profundas desigualdades, um reflexo direto do racismo estrutural que permeia diversas esferas da sociedade, incluindo a odontologia. Indicadores revelam que pessoas pretas e pardas enfrentam piores condições de saúde oral, menor acesso a tratamentos e uma percepção mais negativa dos serviços recebidos, em comparação com a população branca.

A Profunda Marca do Racismo na Saúde Bucal

Um estudo conduzido com estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) corrobora essa realidade, apontando que indivíduos pretos e pardos apresentam maior autopercepção negativa da saúde bucal, mais perda dentária, dificuldades significativas de acesso aos serviços odontológicos e uma avaliação mais desfavorável do atendimento recebido. Essas disparidades se manifestam em uma maior prevalência de cárie e doença periodontal, inflamação dos tecidos que, se não tratada, pode levar à perda de dentes, e menor acesso a tratamentos de reabilitação.

A Raiz da Diferença: Fatores Interligados

Celso Zilbovicius, professor da Faculdade de Odontologia da USP e especialista em odontologia social, explica que essas diferenças são “resultado da interação entre fatores socioeconômicos, territoriais e raciais”. As barreiras, segundo o especialista, são multifacetadas:

  • Barreiras Estruturais: Incluem a distribuição desigual dos serviços de saúde e o subfinanciamento da atenção básica, que impactam diretamente a disponibilidade e qualidade do atendimento.
  • Barreiras Socioeconômicas: Fatores como baixa renda e inserção precária no mercado de trabalho dificultam o acesso ao cuidado odontológico, transformando-o em um luxo para muitos.
  • Barreiras Culturais: Relacionadas à desconfiança e a experiências negativas anteriores com serviços de saúde, que podem afastar a população negra do cuidado preventivo e curativo.
  • Barreiras Institucionais: Marcadas por práticas de racismo nos próprios serviços de saúde, que comprometem o acolhimento, a dignidade e a efetividade do atendimento.

Saúde Bucal como Direito: O Caminho para a Equidade

Diante de um problema tão complexo, Zilbovicius defende ações em diferentes níveis para promover a equidade. Entre as medidas essenciais, ele destaca a criação de programas educativos antirracistas no Sistema Único de Saúde (SUS) e a atuação multiprofissional na elaboração de políticas públicas, envolvendo sociólogos, psicólogos, cientistas políticos e profissionais da saúde.

Para o professor, é fundamental que a saúde bucal seja reconhecida como um direito social, e não como uma mercadoria, o que exige uma transformação profunda no modelo de atenção vigente. Além disso, a formação dos futuros profissionais da odontologia deve incorporar uma perspectiva social mais ampla, com “enfoque em competência cultural e antirracismo”, visando preparar os dentistas para lidar com a diversidade e combater o preconceito em sua prática diária. Somente com um esforço coletivo e sistêmico será possível desconstruir o racismo na odontologia e garantir o direito à saúde bucal para todos.

Fonte: jornal.usp.br

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