A Universidade de São Paulo (USP) foi palco de um dos conflitos mais intensos de sua história recente, com uma paralisação estudantil que se estendeu por 54 dias. O movimento, impulsionado por uma série de insatisfações e problemas estruturais, culminou em episódios de tensão e levantou questionamentos profundos sobre a gestão universitária, o diálogo com a comunidade acadêmica e o impacto de tais mobilizações.
O estopim para a crise ocorreu em 31 de março, quando o Conselho Universitário aprovou a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE), um bônus mensal exclusivo para docentes em regime de dedicação integral. A exclusão dos servidores técnico-administrativos acendeu a chama de uma insatisfação latente, precipitando uma série de paralisações.
O Estopim e as Reivindicações Multissetoriais
Em 9 de abril, servidores da USP aprovaram a deflagração de uma greve para o dia 14, reivindicando isonomia salarial, reposição de perdas desde 2012 e o fim da política de terceirização. Coincidindo com a adesão estudantil, que viu mais de 105 cursos pararem no primeiro dia, o movimento agregou pautas próprias dos alunos, como o aumento das bolsas do PAPFE, a melhoria dos restaurantes universitários e das condições de moradia no Crusp.
Essas reivindicações estudantis, como apontado por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq, evidenciavam problemas estruturais graves que poderiam ter sido atendidos sem a pressão das paralisações. A gestão da universidade foi questionada pela falta de atenção à qualidade dos alimentos em restaurantes terceirizados e ao estado físico de algumas moradias estudantis.
Escalada do Conflito e a Intervenção Policial
Em 15 de abril, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) aprovou uma paralisação estudantil unificada por tempo indeterminado. Nas semanas seguintes, a mobilização se alastrou, atingindo 15 faculdades e 104 cursos. Em 24 de abril, os servidores técnico-administrativos encerraram sua greve após um acordo de aporte financeiro e abono de horas, mas os estudantes mantiveram e ampliaram sua paralisação.
O ponto mais tenso foi alcançado em 7 de maio, quando cerca de 150 estudantes ocuparam o saguão da Reitoria. Na madrugada de 10 de maio, aproximadamente 50 policiais militares desocuparam o espaço com uso de cassetetes, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, resultando na detenção de quatro estudantes. A USP declarou não ter sido avisada da intervenção, e o episódio radicalizou o movimento. Em resposta, a Universidade criou uma comissão de resolução de conflitos em 13 de maio.
O ápice da mobilização ocorreu em 20 de maio, com uma marcha de 10 mil pessoas ao Palácio dos Bandeirantes, reunindo estudantes, professores e servidores da USP, Unicamp e Unesp. Dias depois, em 25 de maio, a Associação dos Docentes da USP (ADUSP) aprovou uma greve, que, contudo, teve pouca adesão. O ciclo foi formalmente encerrado em 8 de junho, após 54 dias, quando uma assembleia do DCE votou pelo fim da paralisação estudantil por 323 a 255 votos.
Entre a Legalidade e a Realidade: O Impacto nos Estudantes
A paralisação estudantil, embora amplamente chamada de “greve”, não se enquadra tecnicamente na definição jurídica da Lei nº 7.783/1989, que pressupõe vínculo empregatício. No entanto, é considerada uma manifestação legítima do exercício de liberdades constitucionais como reunião, expressão e locomoção. Os limites dessa legitimidade são claros: invasões violentas, uso de violência física ou ameaça que impeçam aulas excedem os direitos de manifestação.
Para os estudantes, o impacto da paralisação é real, com o risco de perda de provas, trabalhos e bolsas devido à legislação que impõe frequência mínima de 75%. No entanto, na prática, calendários são remanejados, e os mais penalizados acabam sendo os professores, com um ensino deficiente. A “reação pós-paralisação parece ser continuar em frente como se nada tivesse acontecido”, observa Chaimovich, lamentando a ausência de uma análise profunda das consequências.
Um Fracasso Coletivo? O Apelo por Análise e Diálogo
Hernan Chaimovich argumenta que a paralisação dos estudantes da USP foi um “fracasso para todos”. Ele critica a condução da administração da USP e a incorporação de “temas político-partidários ultrapassados” pela liderança estudantil, que, segundo ele, desviavam o foco dos problemas estruturais. A falta de diálogo permanente entre a administração e os estudantes, além do uso de táticas repetidas por décadas, são apontados como faces desse fracasso.
Outro ponto crítico é o fortalecimento de ideologias negacionistas da sociedade que acusam as universidades públicas de serem ineficientes e ideologizadas. Para o autor, este é um dos maiores fracassos da paralisação.
A análise proposta não é post mortem, mas in vita: um chamado à academia e aos estudantes para não ignorarem o ocorrido. É essencial que, ao retornar à normalidade, a comunidade acadêmica não se esqueça do que houve, mas se debruce sobre a paralisação para aprender com este fracasso, analisar o que e por que aconteceu, e como poderia ter sido evitada ou ao menos mais bem equacionada em futuras situações.
Fonte: jornal.usp.br
