O Cerrado brasileiro, conhecido por ser o berço das águas que alimentam importantes bacias hidrográficas do país, está passando por uma drástica transformação em sua paisagem hídrica. Um levantamento recente do MapBiomas, em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), revela que a superfície de rios, lagos e lagoas naturais do bioma sofreu uma redução alarmante de 38% entre 1985 e 2025. No mesmo período, a área ocupada por barragens, açudes e outros corpos hídricos artificiais disparou, crescendo 87%.
A Inversão da Paisagem Hídrica
Os dados do MapBiomas não deixam dúvidas sobre a intensificação da intervenção humana no Cerrado. O professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e da Escola de Comunicações e Artes (ECA), explica que, após ser considerado por muito tempo uma região de baixa produtividade, o bioma despertou interesse crescente. “Em razão de suas inúmeras nascentes, que alimentam importantes bacias hidrográficas brasileiras, passou a despertar interesse para a construção de barragens e usinas hidrelétricas destinadas à geração de energia, à irrigação e ao abastecimento urbano”, detalha Côrtes.
Riscos para as Bacias Hidrográficas Brasileiras
As profundas alterações na paisagem hídrica do Cerrado geram preocupações sérias sobre o futuro das bacias hidrográficas que dependem dos rios ali nascidos. Embora o levantamento do MapBiomas utilize imagens de satélites Landsat com resolução de 30 metros, o que limita o mapeamento de corpos d’água menores e a estimativa precisa do volume, a tendência é inegável: os corpos hídricos naturais com dimensões superiores a 30 metros estão em declínio, enquanto os reservatórios artificiais se proliferam.
O Dilema entre Desenvolvimento e Preservação
Barragens e açudes desempenham um papel crucial no desenvolvimento econômico, especialmente na geração de energia, na irrigação para a agricultura e no abastecimento de cidades. Contudo, a substituição acelerada de ambientes naturais por essas estruturas artificiais pode ter consequências graves. Entre elas, destacam-se o comprometimento do equilíbrio dos ecossistemas, o impacto direto sobre nascentes e o aumento da vulnerabilidade das regiões a períodos de estiagem prolongada.
Para o pesquisador, é vital monitorar os impactos acumulados dessas intervenções. A preservação da segurança hídrica do Cerrado e das bacias hidrográficas que dele dependem exige uma atenção contínua e estratégias de gestão que equilibrem as necessidades de desenvolvimento com a sustentabilidade ambiental.
Fonte: jornal.usp.br
