Exposição na USP desvenda a arte por trás das capas icônicas da Livraria José Olympio Editora: uma imersão visual na história da literatura brasileira (1930-1960)

A história da literatura brasileira é repleta de grandes autores e obras, mas a arte que as reveste, muitas vezes, permanece nos bastidores. É para lançar luz sobre esse universo que a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP sedia a exposição Artes Gráficas e Literatura: Livraria José Olympio Editora, Anos 1930–1960. Em cartaz até 25 de setembro, a mostra gratuita apresenta cerca de 200 livros publicados ao longo de três décadas por uma das mais importantes editoras do Brasil no século 20, revelando a riqueza e a diversidade de suas linguagens visuais.

A curadoria da exposição é da designer Carla Fernanda Fontana, doutora em Design pela FAU-USP e autora do livro “Padrões e Variações – Artes Gráficas na Livraria José Olympio Editora, 1932-1962”, lançado pela Edusp em conjunto com a abertura da mostra. Segundo Fontana, a iniciativa busca corrigir uma lacuna na historiografia, que por vezes foca em nomes isolados e perde a perspectiva do “entorno” criativo. “Um dos motivos pelos quais escolhi a José Olympio, além de ter sido uma editora com grandes feitos, se refere ao material prévio disponível ao qual tive acesso, e queria justamente estudar os originais, as transformações gráficas, e como a arte era feita na época”, explica a curadora. O acervo exposto é composto por exemplares da BBM, do acervo pessoal de Fontana e da Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP.

Identidade Visual e a Diversidade das Coleções

Um dos pontos altos da exposição é a forma como a Livraria José Olympio Editora adaptava suas capas para diferentes públicos e coleções. Carla Fontana analisa em seu livro e demonstra na mostra como a identidade visual era uma ferramenta estratégica. Por exemplo, a coleção “Fogos Cruzados”, dedicada à literatura estrangeira traduzida, apresentava designs distintos, visando um público mais amplo. Em contraste, a “Coleção Ciência de Hoje” adotava um estilo sóbrio para seus textos científicos acessíveis, enquanto a “Coleção Menina e Moça”, voltada ao público feminino infanto-juvenil, explorava cores intensas e ilustrações de inspiração francesa, criando uma unidade visual que fidelizava leitores.

Grandes Nomes e Parcerias Criativas

A mostra dedica atenção especial a artistas que deixaram sua marca na José Olympio. Luís Jardim, por exemplo, é celebrado não apenas por suas diversas capas espalhadas pela exposição, mas também por sua multiplicidade artística – ele era escritor, com oito livros publicados pela própria editora. A curadora destaca a forte conexão entre palavra e imagem em seu trabalho, como na capa de seu livro “O Boi Aruá”. Outro exemplo notável é João Guimarães Rosa, que ia além do texto, criando esboços detalhados para as capas de suas obras, os chamados “mosaicos ilustrados”, com instruções precisas para a gráfica e o artista. A exposição exibe os projetos de Rosa ao lado das artes finais, revelando o diálogo entre autor e designer.

A seção de ilustrações também explora a literatura russa, com gravuras de alto contraste em preto e branco, como as xilogravuras de Leskoschek. “O conjunto de obras completas e ilustradas de Dostoiévski foi um dos projetos mais importantes de livro ilustrado que a José Olympio fez”, afirma Fontana. O clássico “Crime e Castigo”, por exemplo, foi traduzido por Raquel de Queiroz e ilustrado por Santa Rosa, com um projeto gráfico que ainda hoje influencia as editoras. A tradução direta do russo para o português no mercado editorial brasileiro só se consolidou a partir do trabalho do professor da USP Boris Schnaiderman (1917-2016).

Resgatando Histórias: Os Capistas por Trás das Obras

Entre os principais capistas homenageados na exposição estão Santa Rosa, Luís Jardim, Poty, Raul Brito e George Bloow. Enquanto Santa Rosa já era um artista consolidado, outros como Bloow e Raul Brito permaneceram em grande parte desconhecidos. Carla Fontana realizou um trabalho de investigação minucioso, consultando jornais antigos e arquivos para reconstituir as trajetórias desses artistas. “Achei informações relacionadas à carreira deles, mas nem sempre coisas muito pessoais. Raul Brito, por exemplo, eu não posso saber com certeza se ele teve uma formação profissional ou não”, explica a curadora, que descobriu, por exemplo, que Brito trabalhou em uma distribuidora de cinema e chegou a ganhar na loteria.

Ao resgatar essas histórias, a exposição e o trabalho de Fontana buscam oferecer uma visão mais abrangente do que a Livraria José Olympio representou. “O que eu procurei fazer foi falar do que a José Olympio representou, através de uma pesquisa mais sistemática, que pudesse trazer uma parcela maior do contexto, tirando o foco de apenas uma pessoa conhecida”, conclui a curadora.

A exposição Artes Gráficas e Literatura: Livraria José Olympio Editora, Anos 1930–1960 pode ser visitada até 25 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 20h30, e aos sábados, das 9h às 13h, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, localizada na Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, São Paulo. A entrada é gratuita.

Fonte: jornal.usp.br

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