Juros Altos e Inflação de Alimentos: Por Que 80% das Famílias Brasileiras Estão Endividadas, Segundo Professor da USP

O endividamento das famílias brasileiras atinge patamares alarmantes, com 80% dos lares em situação de dívida, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviço e Turismo (CNC). A complexidade do cenário é explicada pelo professor Rodrigo de Losso, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, que aponta a inflação dos alimentos e os juros exorbitantes como os principais motores dessa ‘bola de neve’.

Inflação dos Alimentos e a Armadilha do Crédito

Para Losso, a alta nos preços dos alimentos é um fator crucial que impacta diretamente as camadas mais vulneráveis da população. Com os salários corroídos rapidamente e os gastos essenciais persistindo, muitas famílias se veem forçadas a recorrer a modalidades de crédito de alto custo.

“As pessoas tomam crédito ou no cheque especial ou no cartão e começam a pagar muito juros. Porque essas duas modalidades de crédito têm uma taxa de juros muito mais alta aí do que os 14,5%, que é a da Selic. Esta chega a mais de 100% ao ano. E entra uma bola de neve. Então é a retroalimentação. Preciso de crédito, não consigo pagar os juros, vou pedir mais crédito, e assim vai, indefinidamente”, justifica o professor, evidenciando o ciclo vicioso.

Os Múltiplos Fatores Por Trás dos Juros Elevados no Brasil

Os juros no Brasil não são altos por uma única razão, mas por uma combinação de elementos estruturais, conforme Rodrigo de Losso. A inadimplência elevada é um dos principais, aumentando o risco para as instituições financeiras e, consequentemente, elevando as taxas cobradas para compensar possíveis calotes.

Além disso, a taxa Selic em patamar alto encarece o crédito em toda a economia. Outros fatores incluem o custo de captação dos bancos – o valor que as instituições pagam para obter recursos no mercado e que é repassado aos empréstimos – e os impostos, que também incidem sobre o preço final das operações de crédito.

Caminhos para Aliviar o Endividamento

Individualmente, o professor sugere que procurar modalidades de crédito com juros mais baixos para renegociar dívidas existentes pode ser uma saída para aliviar a pressão dos juros. No entanto, ele ressalta que essa medida, por si só, não resolve a questão se a falta de dinheiro persistir no fim do mês.

A solução mais abrangente e duradoura, segundo Losso, reside no crescimento econômico do país. Isso implica em investimentos, expansão da atividade produtiva, geração de renda e, consequentemente, uma melhora significativa no poder de compra das famílias brasileiras. Sem um avanço estrutural, o ciclo de endividamento tende a persistir, mantendo milhões de lares em uma situação financeira delicada.

Fonte: jornal.usp.br

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