Fernando Henrique Cardoso, um dos nomes mais proeminentes da história recente do Brasil, celebrou 95 anos em 18 de junho, consolidando sua posição como uma personalidade inexcedível. Sua vida e obra se entrelaçam com os dilemas do país, marcadas por uma profunda contribuição intelectual e uma decisiva atuação política.
As Raízes da Sociologia Paulista e o Seminário Marx
Discípulo de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso foi parte fundamental da chamada Escola Paulista de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP). Ao lado de figuras como Octávio Ianni, Marialice Mencarini Foracchi e Maria Sylvia de Carvalho Franco, ele ajudou a moldar uma tradição de ciências sociais que se estenderia por gerações. Um marco dessa efervescência intelectual foi o celebrado Seminário Marx, que reuniu jovens assistentes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Este encontro, que contou com a participação de Fernando Henrique, Octávio Ianni, José Arthur Giannotti, Fernando Novais, Ruth Cardoso, Paul Singer e Roberto Schwartz, simbolizou o impulso inovador da USP e acompanhou a modernização do Brasil pós-Segunda Guerra Mundial.
Aliando o conhecimento das vanguardas científicas internacionais à busca por entender a formação moderna do Brasil, a produção resultante desse período renovou o marxismo e recusou explicações dogmáticas. Obras marcantes surgiram, tornando-se clássicos do pensamento brasileiro.
O Pioneirismo da Teoria da Dependência
A tese de doutorado de Fernando Henrique, “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional” (1961), ousou questionar leituras dogmáticas do marxismo, explorando a íntima relação entre a sociedade escravista e a formação do capitalismo europeu. Sua análise sugeria que o escravismo colonial estava na gênese da sociedade moderna no centro, criando uma solidariedade entre fenômenos aparentemente contraditórios e impactando a formação do capitalismo na periferia.
Em “Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico” (1963), sua livre-docência, FHC confrontou teses sobre o desenvolvimento nacional, revelando o caráter conservador da burguesia brasileira, presa entre forças oligárquicas, capital internacional e um arrefecido impulso empreendedor. A obra culminou com uma questão provocadora: “No limite a pergunta será então, subcapitalismo ou socialismo?”. Mais tarde, durante sua permanência na Cepal, ele se tornaria o principal formulador da Teoria da Dependência, uma construção tipicamente latino-americana que, embora por vezes próxima ao conceito de subdesenvolvimento de Celso Furtado, acentuava a dinâmica das classes sociais e o papel do Estado.
Intelectual no Exílio e a Transição para a Política
Após ser compulsoriamente aposentado em 1969, em decorrência do golpe militar de 1964, Fernando Henrique experimentou “os ares do mundo”, lecionando em importantes universidades internacionais. Em seu retorno ao Brasil, foi um dos fundadores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), uma instituição de pesquisa de grande relevância até hoje. Desse período datam obras como “O Modelo Político Brasileiro” (1972) e “Autoritarismo e Democratização” (1975), que propunham interpretações originais sobre o autoritarismo no país.
A presidência do Cebrap o aproximou das forças políticas engajadas na democratização, levando-o a uma reconversão de sua vocação. Confrontado com suas decisões como presidente em relação à sua obra, FHC respondeu: “esqueçam o que eu escrevi”. Essa frase, interpretada sob a ótica de Max Weber, reafirma a divergência de valores entre a ética do compromisso (política) e a ética da responsabilidade (ciência), reconhecendo que ambas são esferas distintas.
Legado: A Tensão entre Ciência e Ação Pública
A biografia intelectual de Fernando Henrique Cardoso é um exemplo da máxima do sociólogo Hans Freyer, que via um elo entre o pensamento sociológico e o querer social, tornando a sociologia uma autoconsciência científica da sociedade. Sua trajetória expressa a grandeza e os desafios do métier, assim como a difícil conciliação entre ação pública e ciência, entre compromisso e afastamento.
Embora em consonância com as concepções de Florestan Fernandes sobre a defesa dos princípios civilizatórios, o percurso do sociólogo-presidente revelou escolhas divergentes às do mestre. A tentativa de conciliar, de modo próprio e nem sempre apaziguado, as duas faces de sua biografia – a sociológica e a política – elucida os impasses e dramas da história brasileira, enlaçando escolhas possíveis e construindo percursos que transcendem as intenções declaradas. Fernando Henrique Cardoso, um dos últimos remanescentes de sua geração, permanece uma figura central para a compreensão das últimas décadas da história do Brasil.
Fonte: jornal.usp.br
