Quando a Noite Vira Pesadelo: Como a Nictofobia Transforma o Escuro em Ansiedade Extrema e Prejudica Seu Sono

Para muitas pessoas, a noite é sinônimo de descanso e tranquilidade. No entanto, para outras, a chegada do escuro desencadeia uma batalha interna contra a ansiedade extrema, transformando a escuridão em um verdadeiro pesadelo. Este fenômeno é conhecido como nictofobia, o medo irracional e intenso da noite ou da escuridão, que, embora mais comum na infância, pode persistir e causar sérios problemas na vida adulta.

O Que é Nictofobia e Como Ela Se Manifesta?

A nictofobia vai além de um simples desconforto com o escuro. Segundo Adélia Miranda, médica psiquiatra e preceptora da Faculdade de Medicina da USP de Bauru (FMBRU), trata-se de uma fobia específica, um dos transtornos de ansiedade que se manifestam em crises mediante um estímulo estressor — neste caso, o escuro. “É diferente de não gostar de escuro, a pessoa tem uma crise de ansiedade mediante a possibilidade de ter que ficar no escuro”, explica a especialista.

Os sinais são claros e podem incluir respostas fisiológicas e psicológicas intensas, como taquicardia, falta de ar, uma sensação iminente de perigo ou morte, e a necessidade de manter luzes acesas para conseguir dormir. A ansiedade, definida como um hiperfuncionamento do sistema nervoso autônomo seguido de desconforto, torna-se patológica quando o estímulo não cessa ou é irracional, como ocorre na nictofobia.

As Raízes Profundas do Medo: Causas da Nictofobia

Como toda patologia psíquica, a nictofobia é multicausal. Adélia Miranda aponta para três pilares principais em seu desenvolvimento. Primeiramente, uma predisposição orgânica: indivíduos com um sistema nervoso autônomo hiper-reativo podem ser mais suscetíveis. Em segundo lugar, um padrão comportamental, onde a pessoa aprendeu a responder com ansiedade a certas situações.

Por fim, há a questão psicodinâmica, frequentemente ligada a traumas sofridos que foram reprimidos. O inconsciente manifesta o trauma através de um sintoma “mais aceitável”. Em fobias, esses traumas podem estar relacionados a momentos precoces do desenvolvimento, onde a pessoa percebeu sua não total independência, gerando uma crise existencial. A psiquiatra também sugere que a nictofobia pode ser uma herança ancestral, um resquício do medo do desconhecido que o escuro representava para nossos antepassados, antes de desenvolvermos a segurança de ambientes fechados.

Sinais de Alerta e o Impacto na Qualidade de Vida

Identificar a nictofobia é crucial para buscar tratamento. A médica alerta para a diferença entre um desconforto e uma crise de ansiedade irracional. Comportamentos evitativos, como a incapacidade de dormir sem luz acesa, são fortes indicadores. “O ideal é o ser humano dormir no escuro, porque isso propicia um relaxamento, um descanso maior”, ressalta Adélia. Se a fobia começa a atrapalhar a rotina ou a gerar ansiedade constante, é hora de procurar ajuda.

A falta de tratamento pode levar a um ciclo vicioso, onde um transtorno de ansiedade pode desencadear outros. O sono, que deveria ser um momento de relaxamento, torna-se uma fonte de estresse, podendo se estender para o dia a dia e afetar a tomada de decisões e a vida de modo geral.

Desvendando o Escuro: Opções de Tratamento

Para as fobias específicas, como a nictofobia, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) demonstra ser superior a medicamentos como antidepressivos, que são mais indicados para ansiedade generalizada. A TCC não busca medicar um episódio isolado, mas sim reeducar a percepção do indivíduo sobre o estímulo estressor.

Na TCC, o paciente é guiado a identificar a fobia e a aplicar técnicas de dessensibilização. Isso envolve a exposição gradual ao escuro, ajudando a pessoa a encontrar os aspectos positivos e seguros da escuridão, desmistificando o medo ancestral. O objetivo é modificar a percepção do escuro, transformando-o de uma ameaça em um ambiente de conforto e segurança. “Faz parte da terapia desmistificar isso, é diferente de eu estar numa floresta e estar na minha casa”, conclui Adélia Miranda.

Fonte: jornal.usp.br

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