Exposição ‘Beijo de Língua’ de Nelson Felix no MAC-USP Entrelaceia Arte, Idiomas Antigos e Mitologia Grega em São Paulo
A mostra individual do artista carioca Nelson Felix explora a comunicação e o simbolismo através de 13 obras que mesclam elementos textuais, visuais e escultóricos, convidando o público a uma experiência poética no Museu de Arte Contemporânea da USP até 29 de novembro.
Uma tartaruga e um cacto desenhados sobre mapas de Milão e Roma, ladeados por um triângulo de tinta com a frase “3˚ beijo de Giotto” e símbolos de cruz e rosa. Este é apenas um vislumbre de uma das 13 obras que compõem a nova exposição “Beijo de Língua”, de Nelson Felix, em cartaz no mezanino do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) até o dia 29 de novembro. A mostra reúne a produção do artista carioca, de 72 anos, que, por meio de uma fusão de poéticas, cria um verdadeiro encontro de linguagens – ou, como ele próprio define, um “Beijo de Língua”.
Felix acredita que cada artista desenvolve sua própria linguagem, impulsionado por uma forte vontade de se comunicar. No entanto, ele ressalta a importância de a mensagem não ser totalmente decodificada, permitindo que a arte permaneça em um “estado amorfo, num estado poético”. Essa dualidade entre comunicação e mistério permeia toda a exposição, que desafia o visitante a sentir mais do que a entender.
A Poética do Encontro de Linguagens
As obras expostas no primeiro andar do mezanino do MAC-USP fogem da tela tradicional, apresentando-se como peças gráficas com elementos escultóricos. Muitas delas combinam impressões fotográficas sobre papel, bastão de óleo e grafite em quadros de madeira protegidos por vidro. Um exemplo notável é Jano (2023-2024), que exibe duas versões da mesma fotografia em preto e branco do próprio artista, entrelaçadas de perfil para formar uma única imagem. Sobre ela, as palavras “Aramea” e “Aemara” se sobrepõem, com setas apontando para direções opostas.
Essa dupla de palavras é um mote recorrente na mostra. Elas surgiram para Felix em 1978, durante uma viagem a Lima, no Peru. Um amigo venezuelano observou que “aemara”, um dos idiomas indígenas da região, soava como “aramea” (aramaico em espanhol) quando lido ao contrário. “Isso me chamou muito a atenção, pelo grau de simbolismo. Ficou na minha cabeça e pensei que aquilo daria uma exposição, mas teria que ser algo tridimensional”, relata Felix, que, por falta de recursos na época, adiou a ideia, que o “perseguiu a vida toda”.
Entre Aymara, Aramaico e o Mito de Hermes
A produção de Felix, profundamente pautada na linguagem, busca inspiração em três obras literárias consideradas significativas na história da arte: Libro de la vida (1562-1565), de Santa Teresa de Ávila; What I Believe (1925), de Bertrand Russell; e, de forma mais proeminente, o Hino a Hermes (entre os séculos 7 e 6 a.C.), de Homero. Do poema homérico, Felix selecionou oito versos, que ganham vida e forma em suas criações.
A narrativa do Hino a Hermes, que serve de base para várias peças, descreve o nascimento do deus grego dos viajantes, do comércio e das linguagens. Contrariando a tradição, Hermes nasce adulto em uma caverna e, ao sair, sua primeira ação é roubar as vacas de seu irmão Apolo. Repreendido por Zeus, ele é forçado a retornar, mas no caminho encontra uma tartaruga. Percebendo o potencial de seu casco para criar um instrumento musical com cordas de intestino de cordeiro, Hermes inventa a cítara. Para Felix, “ao criar um instrumento para gerar som e transformar este som em música, ele inventou a arte”. A tartaruga, assim, torna-se um símbolo central, retratada em diversas peças, inclusive nomeando uma delas, Tartaruga de Homero (2024), uma série de impressões fotográficas de um homem segurando o animal, acompanhadas de estacas de metal e um penduricalho de cobre.
Desenhos, Esculturas e o Simbolismo Enigmático
Além da tartaruga, outros elementos como cruzes, rosas, cactos, cadeiras e pedaços de mapas se repetem em pinturas, desenhos e esculturas. Questionado sobre seus significados, Felix mantém o mistério: “Tem coisas que não vale a pena falar, que apenas acontecem. Por exemplo, eu posso te explicar uma árvore, mas não vai adiantar. Você precisa vê-la para entendê-la. A poesia é desta natureza, a partir do momento que você entende, ela não existe mais.”
Com essa perspectiva de sentir em vez de entender, o artista convida o público a apreciar Desenhos de pensamento (2020-2026), uma série de mais de 60 desenhos expostos em fileira. Felix descreve seu processo: “O meu pensamento é gráfico. Quando desenho, penso. É uma necessidade compulsiva.” Entre as folhas, há uma foto do céu da boca do artista com a frase “O desenho é minha língua”, um cacto ilustrado em perspectiva e até um tutorial de como virar uma cadeira. O que está em exibição, segundo ele, não representa nem metade do que rabiscou nos últimos seis anos.
No andar abaixo do mezanino, os mesmos elementos ganham proporções gigantescas, transformando-se em esculturas que se espalham pelo chão. Junto a elas, letras de mármore formam trechos dos textos de inspiração, escritos em aramaico e aymara. Muitas vezes, letras de diferentes idiomas são coladas, simbolizando a união. Felix explica a quebra da tradição de não colar o mármore: “Nesse caso achei necessário, porque o grude representa as duas línguas se beijando.”
O Refúgio Institucional da Arte
A ideia para a exposição, que ficou latente por quase cinco décadas, materializou-se após o encerramento de outra mostra de Felix, Cartas de Amor, quando um amigo o incentivou a desenvolver um projeto de teor institucional. O artista expressa sua preferência por esses espaços, como o MAC-USP, considerando-os um refúgio para a arte na lógica de mercado atual.
“Se você ligar o jornal na TV, por exemplo, 90% do programa vai falar de economia. Na guerra está morrendo um monte de gente, mas sabe por que ela está sendo ruim? Porque o petroleiro não está podendo passar e o preço da gasolina vai aumentar”, critica Felix. Ele complementa: “O dia em que 60% do conteúdo do jornal for cultura, tudo será muito diferente. Nós damos muita ênfase no monetário e, de todas as artes, a mais afetada é a arte visual, por envolver muito dinheiro para a produção. Os espaços institucionais não pensam tanto nisso, o que permite trabalhos mais complexos.” O MAC-USP, sendo um museu universitário e voltado para o aprendizado, representou ainda mais essa liberdade, inclusive com a montagem das peças aberta ao público.
Fonte: jornal.usp.br
