Arquigrafia da USP: Como Plataforma Colaborativa de Arquitetura Impulsiona o Diálogo Global e a Pesquisa em Humanidades Digitais

Arquigrafia da USP: Como Plataforma Colaborativa de Arquitetura Impulsiona o Diálogo Global e a Pesquisa em Humanidades Digitais

Com mais de 14 mil imagens, o projeto da FAU-USP se torna um hub internacional, conectando pesquisadores, estudantes e instituições para o intercâmbio de conhecimento e inovação em patrimônio cultural e urbano.

A Universidade de São Paulo (USP) tem na internacionalização uma de suas prioridades estratégicas, buscando expandir sua presença global através de parcerias, mobilidade acadêmica e compartilhamento de conhecimento. Nesse cenário, o projeto Arquigrafia, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, emerge como uma ferramenta inovadora para fortalecer esse intercâmbio.

A plataforma colaborativa Arquigrafia reúne um acervo de mais de 14 mil imagens fotográficas de arquiteturas e espaços urbanos do Brasil e do mundo lusófono. Aberta à colaboração de estudantes, pesquisadores, leigos e instituições, ela demonstra que a internacionalização acadêmica pode ser efetivada pela partilha pública do conhecimento, construindo pontes para o diálogo global.

Arquigrafia: Uma Ponte para o Mundo

As primeiras iniciativas internacionais do Arquigrafia datam de 2012, com interações junto a pesquisadores do Institut des Mondes Urbains (IMU) da Université de Lyon, França. Segundo Artur Rozestraten, professor da FAU e coordenador do projeto temático “Experiência Arquigrafia 4.0”, financiado pela Fapesp, essas interações iniciais se consolidaram, em 2015, com a participação em um congresso da rede transnacional Centre des Recherches Internationales sur l’Imaginaire (CRI2i).

Desde então, a cooperação com universidades francesas (Lyon, Grenoble-Alpes, Jean-Monnet e Paul-Valéry) tem sido contínua, com apoio da USP e do Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil (USP/Cofecub). Essa parceria resultou em mais de uma década de colaboração, incluindo a organização de seis edições do “Colóquio Internacional Imaginário: Construir e Habitar a Terra”, alternando entre França e Brasil. Além disso, a plataforma tem explorado novas frentes de diálogo, como a visita do professor Cecil Madell, da University of Cape Town (UCT), em abril de 2025, abrindo caminho para futuros intercâmbios em Humanidades Digitais.

Parcerias Estratégicas e Inovações

A pesquisadora associada ao Arquigrafia e professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Vânia Lima, destaca a importância da participação em eventos como a 54ª Conferência Anual da Art Libraries Society of North America (ARLIS/NA), em Montreal, Canadá, em maio de 2026. Nesses encontros, o Arquigrafia tem despertado interesse, especialmente pela sua característica colaborativa, onde usuários podem inserir imagens na mesma base de dados que coleções institucionais – um diferencial em relação a outras plataformas.

O projeto também avança na padronização de informações, colaborando com o Getty Vocabularies para a inclusão de termos em português do Vocabulário Colaborativo de Artes e Arquitetura (VCAA) no Art and Architecture Thesaurus (AAT), Cultural Objects Name Authority (CONA), Thesaurus of Geographic Names (TGN) e Union List of Artist Names (ULAN). Em novembro de 2025, a pós-doutoranda Camila da Silva visitou a Universidade de Yale, nos EUA, para conhecer a plataforma LUX e discutir a aplicação do Linked Art, um modelo de dados para descrever patrimônio cultural, na plataforma brasileira, além de possíveis usos de inteligência artificial a partir das tags.

Estudantes e Pesquisadores Rumo ao Exterior

O Arquigrafia tem sido um catalisador para experiências internacionais de estudantes e pesquisadores da USP. Karina Leal, graduanda da FAU, realizou um estágio na Université Paul-Valéry Montpellier, França, entre abril e junho de 2025, com incentivo da Bolsa de Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE) da Fapesp. Ela ressalta o impacto da experiência na graduação, ampliando conhecimentos e fortalecendo sua rede de contatos, apesar dos desafios em encontrar referências sobre arquitetura africana na França.

Maísa Urbano, também graduanda da FAU e bolsista de Iniciação Científica (IC) do Arquigrafia, esteve em Goldsmiths, University of London, Inglaterra, de setembro a dezembro de 2025, também com bolsa BEPE. Para Maísa, os projetos temáticos com fomento de agências como Fapesp, Capes e CNPq “criam uma ponte para o diálogo e a internacionalização do que é produzido em pesquisa”. João Lucas Nogueira, bolsista BEPE em nível pós-doutoral, enfatiza a imersão em diferentes culturas de pesquisa e a expansão da percepção espacial em estudos sobre cidade e arquitetura, como em sua pesquisa sobre o imaginário arquitetônico da diáspora Atlântica Sefardita na Espanha e Portugal.

O Brasil como Polo de Conhecimento Internacional

A internacionalização do Arquigrafia não se limita à saída de brasileiros. A plataforma também atrai pesquisadores estrangeiros ao Brasil. Sayed Abdul Basir Samimi, engenheiro civil e professor do Afeganistão, atuou como pesquisador colaborador e bolsista no Arquigrafia. Ele estudou a transformação do Triângulo Histórico de São Paulo, utilizando a plataforma para compartilhar e discutir a memória arquitetônica e urbana. Samimi destaca que “plataformas como o Arquigrafia mostram que o conhecimento sobre arquitetura, cidades e patrimônio cultural é capaz de surgir fora dos centros tradicionais de poder”.

Eduardo Miranda, engenheiro de informática chileno, integra o projeto Arquigrafia como bolsista Fapesp (TT-5) desde março de 2026. Ele valoriza o ambiente de trabalho respeitoso e colaborativo da equipe, contrastando com experiências corporativas anteriores. Miranda aponta a autonomia e a horizontalidade como fatores que fortalecem o envolvimento coletivo e o sucesso do projeto.

O Arquigrafia, ao reunir arquitetura, história, patrimônio, tecnologia digital e estudos urbanos, conecta múltiplas escalas de conhecimento e expande o diálogo geograficamente. O projeto tem a ambição de aprofundar o diálogo com a comunidade lusófona, mantendo sua matriz tecnológica brasileira, mas com potencial para desdobramentos em outras plataformas-irmãs em inglês, espanhol, francês e outros idiomas. Essa iniciativa demonstra como a colaboração, a tecnologia e o diálogo internacional podem tornar a ciência mais aberta, democrática e conectada à sociedade.

Fonte: jornal.usp.br

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