“Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho. Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”. Os versos de Dona Ivone Lara ecoam na jornada de Cely Carolyne Pontes Morcerf, doutoranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Sua trajetória é um conto de resistências, um propósito firme em transformar a educação e a prática médica, buscando uma abordagem que vá além dos protocolos e diagnósticos, centrada na humanização do cuidado e no olhar para as pessoas.
A tentativa de superar o tradicionalismo na medicina revela as dores de uma comunidade que clama por empatia. Em um cenário onde a medicalização da vida, tanto física quanto mental, muitas vezes se resume à reprodução de protocolos e prescrições, a doutoranda questiona a perpetuação de um saber médico que rotula e ofusca a beleza das identidades e histórias de vida.
Da Inspiração de Nise ao Desafio da Medicalização
As reflexões da psiquiatra Nise da Silveira, que ousou mostrar que “o louco não era necessariamente uma ruína”, dialogam com os desafios atuais da saúde mental. Nise defendia a simplicidade do cuidado integral, em contraste com a valorização excessiva do diagnóstico, da alta hospitalar e da hiperespecialização que fragmenta o cuidado humano. Para Cely, a coragem de Nise em seguir seu próprio caminho, valorizando o protagonismo e a biografia do paciente – a quem ela prefere chamar de Pessoa – é um farol.
Essa visão é crucial em um campo onde o trabalho da enfermagem, por exemplo, brilha no resgate da pessoa humana, considerando o vínculo, a história e a reinserção social, fortalecendo o cuidado em liberdade e novas práticas em saúde mental, como canta Dona Ivone Lara: “Se o caminho é meu. Deixa eu caminhar, deixa eu”.
A Jornada Pessoal e a Opção pelos Excluídos
A conexão de Cely com Nise da Silveira é profunda, datando de sua infância em Maceió, cidade natal de ambas. Essa heroína feminina moldou seus passos e pensamentos, direcionando-a para novas formas de cuidado em saúde mental, com uma visão integral, familiar e comunitária, e a importância do trabalho interprofissional. Inicialmente na Terapia Ocupacional, Cely observou o papel da arte como diálogo e terapia, criando reproduções do fazer artístico em ambientes de saúde mental, expandindo-o para serviços descentralizados e comunidades.
No entanto, apesar de admirar a revolução de Nise na Psiquiatria, a paixão pela clínica médica, pela infectologia no aspecto das doenças negligenciadas e, principalmente, um gosto inato pelos excluídos, pelos ‘marginais’, a levou a outro caminho. Estudando a marginalização, encontrou-se com o Modelo Biopsicossocial e com o professor João Mazzoncini de Azevedo Marques, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que se tornaria seu orientador e mentor. Tal qual Nise e Carl Jung, uma correspondência eletrônica selou um encontro de ideias que resultou na proposta educacional de sua tese.
A Arte como Ferramenta de Transformação Social
O modelo de Cely, inspirado em Nise, transcendeu o hospitalar. Ela levou a arte para comunidades de mulheres vítimas de violência, crianças e adolescentes em sofrimento mental, engajando escolas, e para pacientes em unidades de saúde, em situação de rua e em contextos de privação de liberdade. A comunidade tornou-se um laboratório social, unindo vivências pessoais e o estudo da narrativa de Nise, de Maceió ao Rio de Janeiro, onde Cely cursou a graduação e explorou locais históricos da protagonista.
Navegar contra a corrente, contudo, exige espírito de aventura, coragem e perseverança. Muitas vezes, aqueles com vocação para promover mudanças no cuidado em saúde mental se perdem por falta de suporte ou pela resistência de uma sociedade que não reconhece a medicina baseada no afeto, na arte e no humanismo como algo de prestígio. Assim, o estigma se perpetua para os que ousam transformar a realidade.
Um Novo Caminho na USP para o Cuidado Humanizado
O trabalho de doutorado de Cely Carolyne Morcerf, centrado no resgate histórico de Nise, culminou não só em sua tese sobre o Cuidado Integral em Saúde Mental para Populações Marginalizadas e Excluídas, mas também na elaboração de uma nova formação em especialidade para médicos de família e comunidade no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da USP: uma ênfase de um ano adicional em Saúde Mental e Populações Negligenciadas. A iniciativa visa criar agentes multiplicadores, questionadores e promotores de possibilidades no resgate da saúde mental em contextos de privação de liberdade, de direitos humanos, de dignidade e de vulnerabilidade.
Cely segue seu percurso, finalizando o doutorado com um desfecho que ecoa a tese de Nise da Silveira, traçando seu caminho na vida médica e acadêmica: trabalhar com os marginais. Sua visão do crime como um fenômeno biopsicossocial impulsiona a luta por novas formas de ensinar empatia e cuidar da saúde de pessoas nos momentos mais vulneráveis de suas vidas. É um legado que agradece ao nascimento de sua conterrânea Nise, seu modelo de médica, gestora e professora, em um tempo em que muitos a acusaram de retrocesso por acreditar no potencial da Medicina de Família e Comunidade na promoção de novas abordagens em saúde mental.
“Porque a regra é não se envolver. É a neutralidade. E com uma pessoa neutra você não se abre. É o afeto catalisador.” A frase de Nise da Silveira sintetiza a essência do trabalho de Cely, um convite à medicina do afeto e do engajamento humano.
Fonte: jornal.usp.br
