Apesar de não ser um pulmão no sentido biológico exato, a Reserva Florestal do Instituto de Biociências (IB) da USP, carinhosamente conhecida como Matinha, cumpre uma função vital para o campus. Vista do alto, sua densa vegetação se assemelha a um, conectada a outras áreas verdes como a mata do Viveiro e próximas a nascentes de riachos importantes, como o Iquiririm e o Doce, que serpenteiam pelo campus da Cidade Universitária.
Um Santuário de Biodiversidade no Coração Urbano
A Matinha é um verdadeiro refúgio natural, abrigando cerca de 120 espécies arbustivo-arbóreas nativas. Inserida no domínio das Florestas Ombrófilas Densas, que exigem alta pluviosidade e umidade constante, ela também coexiste com manchas de Cerrado. Seu relevo, com um desnível de 30 metros, permite a presença de árvores nativas centenárias de grande porte, como jacarandás, cedros, figueiras, araribás, angicos e canelas, algumas ultrapassando 25 metros de altura. Essas árvores servem de suporte para uma miríade de cipós (lianas) que formam um dossel fechado, criando verdadeiras esculturas vivas. Além disso, a reserva é rica em epífitas, como bromélias, filodendros, cactos, musgos e samambaias, que adornam as árvores sem parasitá-las.
A fauna também é exuberante. A Matinha é lar de diversas espécies de aves, incluindo jacus, garças, gaviões, tucanos e pica-paus. Mamíferos como gambás, saguis, pequenos roedores e morcegos também encontram abrigo e alimento neste ecossistema vibrante, demonstrando a importância da reserva para a manutenção da vida selvagem em um ambiente predominantemente urbano.
Desafios e Ameaças à Preservação
Contudo, a Matinha enfrenta sérios desafios que comprometem sua integridade. Um dos problemas mais persistentes é a presença de plantas exóticas invasoras, introduzidas por agentes externos. Espécies como bambu, abacateiro, falsa-seringueira, goiabeira, palmeira-seafórtia, uva-japonesa e cafeeiro se proliferam rapidamente, competindo por espaço e recursos com as plantas nativas e alterando o equilíbrio ecológico.
Outra questão crítica é a matilha de cães ferais que vive no entorno e frequenta a reserva. Esses animais, abandonados no campus, tornaram-se selvagens e avessos à presença humana, representando um perigo. A situação é agravada pela alimentação irresponsável por parte de algumas pessoas, que deixam comida industrializada e lixo, atraindo não apenas mais cães, mas também pombos, urubus e outros animais, impactando a fauna local. A depredação da cerca de proteção, instalada em 1979, é um problema contínuo, facilitando a entrada não autorizada de pessoas e, consequentemente, dos cães, que ameaçam e atacam frequentadores, principalmente na Rua do Matão.
Oportunidades de Colaboração e Futuro
Apesar dos desafios, a Matinha é um valioso laboratório a céu aberto. Com uma trilha de 550 metros que conecta o Instituto de Biociências ao Instituto de Geociências, a reserva acolhe atividades de pesquisa, ensino e extensão, abertas à comunidade uspiana. Como unidade de conservação da USP, o acesso é restrito para evitar a coleta indevida de amostras biológicas, o descarte de resíduos, o uso de fogo e os riscos de acidentes, garantindo sua proteção.
A Comissão que gerencia a Reserva Florestal do IB convida a todos a conhecerem sua página e redes sociais, e a atuarem na conservação da Matinha. Produzir conhecimento, utilizá-la como sala de aula, divulgar informações e promover a educação científica e ambiental são formas essenciais de colaboração. A restrição de acesso visa proteger este ecossistema frágil, mas a participação de todos é fundamental para manter a Matinha saudável e biodiversa, continuando a fornecer ar puro, umidade, frescor, alimento para a fauna e beleza para a comunidade universitária e visitantes conscientes.
Fonte: jornal.usp.br
