O futebol, com sua complexidade e a constante interação entre jogadores e equipes, sempre representou um desafio para a análise de desempenho. Compreender como essas dinâmicas evoluem ao longo de uma partida é fundamental para aprofundar o conhecimento tático do esporte. Agora, pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP deram um passo significativo ao desenvolver um sistema dinâmico categórico capaz de mapear essas interações e prever momentos críticos e desequilíbrios táticos.
Estudos anteriores muitas vezes simplificavam demais o fenômeno, tratando-o como uma dicotomia ou avaliando indicadores isolados, o que limitava a consistência e abrangência das conclusões. Pensando nisso, o pesquisador Rene Drezner, sob a orientação de Luiz Eduardo Pinto Basto Tourinho Dantas, criou e testou um novo modelo de análise tática. Em vez de focar em estatísticas isoladas, o modelo se concentra na “metaestabilidade” do jogo, uma ferramenta capaz de identificar ajustes estratégicos e analisar a interação de todos os 22 jogadores simultaneamente.
O resultado é um conjunto de 34 estados de configuração de jogo e uma escala de níveis de equilíbrio na interação entre as equipes. A aplicação do modelo a uma partida real demonstrou sua eficácia em revelar a dinâmica da evolução do jogo e situações de desequilíbrio, inclusive identificando os períodos que antecederam os gols da equipe vencedora.
Como o Modelo “Xadrez de Gramado” Funciona
Drezner explica que o modelo funciona como um “xadrez de gramado”. “Dentro do meu modelo, criei 34 classes de configuração. A partir das transições entre essas classes, eu descrevo a evolução do jogo. É como se você reduzisse todas as interações possíveis em um jogo de futebol a apenas 34 e analisasse a evolução da partida a partir dos movimentos nesse tabuleiro”, detalhou ao Jornal da USP. O modelo foi desenvolvido com base na experiência profissional do pesquisador, refinado com análises de jogos de diferentes níveis técnicos e observações de transmissões de equipes consagradas.
A premissa é que o futebol é um sistema dinâmico com múltiplos estados estáveis e transições frequentes. Seguindo o conceito de “metaestabilidade”, a partida não se estabelece em um único equilíbrio, mas flutua constantemente entre padrões temporariamente estáveis. Para formalizar isso, foram empregados sistemas dinâmicos categóricos, ideais para entender as complexas interações táticas entre duas equipes.
Na prática, o modelo classifica o jogo em categorias táticas bem definidas, ou “estados de configuração”, em vez de analisar continuamente dados como velocidade ou distância percorrida. Isso permite estudar a probabilidade de transição de um estado para outro, por exemplo, de uma “organização defensiva” para um “contra-ataque eficiente”. Dois elementos principais foram formalizados: o Modelo de Configuração de Jogo (que cria classes de distribuição de jogadores, as “fotografias táticas”) e a Escala de Equilíbrio na Interação entre as Equipes (que avalia o grau de desequilíbrio ou sucesso de cada situação).
Aplicações Práticas e a Final da Champions League
Para demonstrar a eficácia do modelo, ele foi aplicado à final da UEFA Champions League de 2023/24, entre Real Madrid e Borussia Dortmund (2×0). A partida foi codificada e analisada sequencialmente, permitindo mapear os fluxos de transição entre os estados de interação ao longo do jogo.
“A primeira aplicação seria identificar e quantificar estados-chave, classes de configuração que indicam se uma situação é vantajosa ou desvantajosa. Isso estreitaria a análise para esses pontos específicos. Por exemplo, identificaria as configurações em que a equipe com a posse da bola está em condições de arrematar a gol em posição vantajosa”, explicou Drezner. A segunda aplicação seria identificar padrões na evolução do jogo através da interação entre essas classes, permitindo identificar um estado inicial que gera uma situação vantajosa ou desvantajosa.
Desvendando o Sucesso do Real Madrid
Os dados experimentais capturaram as mudanças dinâmicas no desempenho das equipes. O Real Madrid, por exemplo, manteve a maioria de suas transições em torno da região de equilíbrio, mas conseguiu alcançar estados de desequilíbrio a seu favor, principalmente no quinto período do jogo. Coincidentemente, a equipe espanhola marcou seus dois gols durante esse período, evidenciando a relação entre a configuração tática e a eficiência ofensiva.
Já o Borussia Dortmund, apesar de um bom momento no segundo período da partida, com maior ocorrência de ações favoráveis, apresentou seu pior desempenho em posse de bola no quinto período. Nesse intervalo, a equipe alemã vivenciou muitas transições em regiões de desequilíbrio a favor do adversário.
O modelo também possibilitou identificar ajustes estratégicos. A estratégia defensiva do Real Madrid, por exemplo, provavelmente mudou após a pressão inicial do Dortmund no segundo tempo, o que pode ter levado a menos estados de jogo relacionados. A capacidade de analisar o comportamento tático com tanto detalhe é um recurso valioso para treinadores e analistas de desempenho.
O Futuro da Análise Tática no Futebol
O principal avanço da tese de doutorado de Drezner é oferecer uma ferramenta com maior poder descritivo do que modelos anteriores. Ela proporciona uma visão integrada de múltiplas variáveis – como zona do campo, pressão na bola e condição de finalização – na formação dos estados de jogo. Isso aprimora significativamente nossa compreensão das transições entre esses estados, que, em última instância, definem a evolução da partida.
A tese de doutorado, intitulada “Análise da interação entre as equipes no jogo de futebol por sistemas dinâmicos categóricos”, está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.
Fonte: jornal.usp.br
