A Evolução do Crime Organizado: Entenda como CV e PCC Migraram do Controle de Territórios para a Criminalidade Empresarial e o Impacto Global

Há cerca de quatro décadas, siglas como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) eram desconhecidas. Hoje, representam uma ameaça social complexa, que evoluiu do domínio territorial para uma sofisticada criminalidade empresarial. O CV, nascido em 1979 no presídio da Ilha Grande, Rio de Janeiro, rapidamente se tornou conhecido ao controlar o tráfico de drogas em favelas. O PCC, fundado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, São Paulo, ganhou notoriedade no início dos anos 2000, com rebeliões simultâneas em mais de 20 presídios paulistas, e demonstrou seu poder em 2006, aterrorizando a população com ataques que resultaram em centenas de mortes.

De presídios a territórios: A expansão das facções

A percepção de que o controle dos presídios significava o controle do crime nas ruas impulsionou a rápida expansão dessas organizações. O PCC, em particular, estendeu-se para o interior de São Paulo e outros estados, dominando rotas estratégicas de drogas. Essa migração das grandes capitais para cidades médias reconfigurou o mapa da violência no Brasil. O Atlas da Violência 2026, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, associa diretamente a atuação das grandes facções criminosas às dinâmicas regionais e territoriais de homicídios no país.

A metamorfose do crime: Da violência ao capitalismo ilegal

Um debate central hoje é se facções como CV e PCC podem ser consideradas organizações terroristas, dada sua capacidade de infiltração. O sociólogo Sérgio Adorno, da FFLCH/USP e coordenador científico do NEV/USP, explica que a tendência geral dessas organizações é a acumulação de capital, tal como máfias e cartéis internacionais. Para expandir seus negócios, é imperativo controlar territórios, manter grupos armados para defesa e sustentar redes de corrupção, especialmente policiais, para garantir o fluxo de mercadorias ilegais. Em poucas décadas, o capital acumulado é investido em negócios diversificados, muitos deles legais, borrando as fronteiras entre o lícito e o ilícito.

Essa criminalidade empresarial financia atividades como prostituição, jogos proibidos, lavagem de dinheiro, adulteração de combustíveis e medicamentos, contrabando, crimes digitais, além de investimentos vultosos em imóveis, casas de câmbio, mercado de autopeças e até financeiro. Segundo Adorno, essas mudanças acompanham a globalização do capitalismo e a flexibilização de controles alfandegários e de fronteiras, exigindo uma governança de mercados, populações, territórios, mercadorias e fluxos monetários.

Bruno Paes Manso complementa que o crime, antes restrito ao submundo dos roubos (com alto risco), ascendeu com o mercado de drogas. Este exige racionalidade, lavagem de dinheiro e estratégias para driblar a ilegalidade, criando uma legitimidade na economia e na política. Manso compara a complexidade do tráfico de drogas à do mercado de escravizados após a proibição, que também exigia uma visão estratégica para operar na ilegalidade.

O desafio global e a busca por soluções

Atualmente, o PCC e o CV são as maiores organizações criminosas brasileiras, com tentáculos em quase todas as unidades da federação e conexões internacionais. O governo dos Estados Unidos, inclusive, já as classificou como organizações terroristas globais. Diante desse cenário, a questão que se impõe é: ainda é possível combater esse avanço ou resta apenas conviver com o problema?

Para Bruno Paes Manso, o principal desafio reside nas transformações econômicas, como a crise de emprego e as novas tecnologias. Em um mundo sem oportunidades, as facções oferecem uma fonte de renda lucrativa através da cocaína, que gera possibilidades de investimento em outras atividades criminosas. O poder do dinheiro, na política, economia e mercado financeiro, dificulta o controle institucional, e os grupos criminosos desenvolvem formas cada vez mais sofisticadas de lavagem de dinheiro e de influência econômica e política.

Estratégias para o futuro: Combate e integração social

Sérgio Adorno enfatiza a necessidade de um amplo debate público e ressalta a contribuição de grupos de pesquisa universitários para a compreensão dos problemas de segurança pública. Ele sugere propostas para melhorar as condições de trabalho das agências policiais, modernizar instrumentos de vigilância e investigação, combater a corrupção estatal, reduzir a violência arbitrária, empregar inteligência artificial para monitorar grupos criminosos e sufocar o acúmulo de riquezas. Além disso, aponta a importância de aprimorar a aplicação das leis, o funcionamento dos tribunais, a aplicação das penas e o sistema penitenciário.

Adorno também destaca a relevância de políticas sociais, como a formação de redes de proteção para crianças e adolescentes, medidas para conter a violência contra mulheres (especialmente o feminicídio) e a vulnerabilidade de parcelas da população, como cidadãos pardos e pretos, moradores de rua e migrantes. Em sociedades que conseguiram conter a escalada do crime, duas iniciativas foram fundamentais: políticas sociais para reforçar a integração e cooperação entre diferentes grupos, visando um bem maior como a segurança pública, e, simultaneamente, uma reforma das instituições de justiça para garantir a aplicação da lei e reduzir as taxas de impunidade e reincidência criminal.

Fonte: jornal.usp.br

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