Nas rotas da migração: venezuelanos no Brasil e latinos indocumentados nos Estados Unidos

“`json
{
"title": "Desvendando as Rotas da Migração: Experiências de Venezuelanos em Roraima e Latinos Indocumentados na Califórnia Revelam Redes de Apoio e Culturas Híbridas em Pesquisa Inovadora",
"subtitle": "Estudo pioneiro da USP e Stanford University adota abordagem subjetiva para compreender as complexas jornadas de migrantes e refugiados, destacando a formação de novas identidades e estratégias de sobrevivência em contextos transnacionais.",
"content_html": "<h1>Desvendando as Rotas da Migração: Experiências de Venezuelanos em Roraima e Latinos Indocumentados na Califórnia Revelam Redes de Apoio e Culturas Híbridas em Pesquisa Inovadora</h1><h2>Estudo pioneiro da USP e Stanford University adota abordagem subjetiva para compreender as complexas jornadas de migrantes e refugiados, destacando a formação de novas identidades e estratégias de sobrevivência em contextos transnacionais.</h2><p>Longe das estatísticas frias e das análises meramente objetivas, uma pesquisa inovadora mergulha nas profundezas da experiência humana para desvendar o que significa ser migrante ou refugiado. Conduzido por Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando da USP, em colaboração com Gilvete de Lima Gabriel, da Universidade Federal de Roraima, e Rebecca Tarlau, da Stanford University, o estudo adota uma perspectiva decolonial, centrando-se na subjetividade e nas narrativas de vida dos próprios envolvidos. A investigação abrange duas realidades distintas, porém interligadas pelas complexidades da migração: a acolhida de venezuelanos no Brasil e a integração de latinos indocumentados nos Estados Unidos.</p><p>A metodologia fenomenológica, que considera histórias de vida, narrativas autobiográficas e opiniões como "ciência viva", permitiu ir além das respostas prontas, buscando compreensão, análise e problematização. A pesquisa não se limita a encontrar soluções, mas a abrir espaço para novas perguntas e continuidades narrativas, valorizando inclusive hipóteses descartadas e “achados marginais”.</p><h3>A Jornada Venezuelana no Brasil: Entre a Abundância e o 'Entrelugar'</h3><p>Em 2025, a pesquisa de campo no Brasil concentrou-se no abrigo humanitário Rondon 1, em Boa Vista, Roraima. Considerado o maior da América Latina, o local abrigava 2.300 pessoas em sua capacidade máxima. Através de conversas em grupos-reflexivos e questões norteadoras inspiradas na pedagogia de Paulo Freire – como “Quais experiências marcaram a minha vida na Venezuela e no Brasil?” e “O que essas experiências fizeram comigo?” –, o pesquisador coletou dados ricos sobre a vivência dos venezuelanos.</p><p>As narrativas foram sistematizadas em oito eixos temáticos, que vão da “abundância à escassez” na Venezuela, às “trajetórias, viagens” da migração, e à “formação performativa” de novos aprendizados. Aspectos específicos como “ser migrante e mãe solo no Brasil” e “ser homem, trabalhador e com profissão” foram abordados, culminando nos eixos “nós, migrantes”, “sigo adiante” e “narradores”.</p><p>Os resultados revelam que a vida dos venezuelanos transcende o geográfico, existindo em um “entrelugar”, conceito de Homi Bhabha, onde a cultura é produzida no choque e encontro de diferentes origens. A migração é descrita como um “transmovimento migratório híbrido, composto, complexo e contínuo”, que não se encerra ao cruzar uma fronteira, mas se perpetua nas nuances do cotidiano, nas escolhas baseadas em culturas híbridas e nas constantes idas e vindas entre Venezuela e Brasil, evidenciando uma migração transnacional.</p><p>A presença migrante se manifesta no espaço público através do status migratório, da autodeterminação, do idioma – como o “portunhol”, variante linguística legitimada pelos falantes – e das marcas visíveis de uma busca por pertencimento em meio à adaptação.</p><h3>Redes de Apoio e Resistência na Califórnia: A Voz dos Indocumentados Latinos</h3><p>A pesquisa se estendeu para a Califórnia, nos Estados Unidos, onde o pesquisador realizou um doutorado sanduíche na Universidade de Stanford. O foco foi compreender o acolhimento de imigrantes latinos, sobretudo os “indocumentados” – termo preferido em substituição a “ilegal”, como se ouviu no campo: “No one is illegal on stolen land” (Ninguém é ilegal em terra roubada). A pesquisa buscou tensionar as narrativas necropolíticas e extremistas que marginalizam os direitos humanos.</p><p>Atuando como Educador de Cidadania voluntário no Immigration Institute of Bay Area (IIBA), o estudo explorou as estratégias político-educacionais para a integração local. Três fatores principais fortalecem as vivências da comunidade Latinx:</p><ol><li><strong>Grupos de Referência:</strong> Família, colegas das aulas de cidadania, amizades com outros imigrantes, grupos religiosos e institucionais formam redes de apoio essenciais. Eles compartilham informações vitais para a sobrevivência, como oportunidades de trabalho, distribuição de alimentos e outros itens.</li><li><strong>Linguagem:</strong> O aprendizado do inglês é um mecanismo de adaptação, enquanto o espanhol representa a sobrevivência cultural. O “Spanglish” emerge como uma variante linguística e dialeto popular, simbolizando resistência e adaptação, de forma análoga ao “portunhol” no Brasil.</li><li><strong>Educação como Prática de Liberdade:</strong> A educação é vista como um meio de articular as lutas sociais mais amplas. Estratégias político-educacionais visam construir uma cidadania, mesmo para aqueles com status migratório em avaliação, fomentando a consciência crítica sobre direitos trabalhistas, acesso a serviços públicos, saúde, moradia e participação política local.</li></ol><h3>Migração como Processo Contínuo e Híbrido: Além das Fronteiras</h3><p>As duas frentes de pesquisa, embora em contextos geográficos distintos, convergem para uma compreensão da migração como um fenômeno multifacetado e em constante evolução. Tanto no Brasil quanto nos EUA, a experiência migratória é marcada pela busca por um lugar de pertencimento, pela negociação entre culturas de origem e de acolhida, e pela resiliência na construção de novas identidades.</p><p>A pesquisa sublinha que a migração é um processo que desafia definições estáticas, sendo um fluxo contínuo de transformações pessoais e coletivas. As fronteiras não são apenas geográficas, mas também simbólicas, e a travessia envolve uma reconfiguração da própria existência. A valorização das narrativas dos migrantes e imigrantes revela a riqueza de suas vivências e a complexidade de seus movimentos, desmistificando preconceitos e humanizando o debate.</p><h3>O Papel da Educação e da Subjetividade na Integração Migratória</h3><p>A abordagem centrada na subjetividade e a atuação em centros de imigração e abrigos humanitários reforçam o papel da educação e da extensão universitária como ferramentas de impacto social. Ao sair dos muros das instituições, a pesquisa contribui para a formação crítica e a produção de conhecimento que dialoga diretamente com as necessidades da sociedade.</p><p>As considerações finais do estudo apontam para uma “bagunceira das epistemologias”, onde a pesquisa tem um fim, mas nunca termina. Ela é um convite a se mover com os migrantes, a ser “alguém de passagem, em movimento alteritário, dialógico, que transita entre fronteiras físicas e não-físicas, simbólicas”, coletando dados e interpretando-os dentro das limitações de um espaço-tempo socio-histórico, e das próprias limitações do pesquisador. Essas vivências se convertem em experiências, e essas provocam reflexões contínuas sobre a condição humana em movimento.</p>"
}
“`

Fonte: jornal.usp.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *