Jovens brasileiros integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ apresentam taxas mais elevadas de uso de substâncias psicoativas e iniciam o consumo de álcool, tabaco, cannabis e cocaína mais cedo em comparação com cisgêneros heterossexuais. Essa realidade é ainda mais acentuada entre mulheres bissexuais, conforme um estudo científico publicado no periódico International Review of Psychiatry, parte da pesquisa de doutorado do psiquiatra Caio Petrus Monteiro Figueiredo na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).
A pesquisa sugere que experiências de preconceito, rejeição e isolamento social intensificam o sofrimento psicológico, dificultam a busca por redes de apoio e serviços de saúde mental, e podem levar ao uso de drogas como uma ‘forma de enfrentamento’ para esses jovens.
Detalhes da Pesquisa Abrangente
O estudo avaliou dados de 1.492 jovens, com idades entre 9 e 21 anos, residentes nas cidades de São Paulo e Porto Alegre. Os participantes fazem parte da Brazilian High Risk Cohort (BHRC) – Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais, um dos mais importantes estudos globais sobre neurodesenvolvimento, que investiga as origens genéticas e ambientais dos transtornos mentais. O projeto, também conhecido como Conexão Mentes do Futuro, é parte do CISM, o Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental.
Os participantes responderam a questionários detalhados sobre sua orientação sexual, identidade de gênero e o uso de quatro substâncias psicoativas: álcool, tabaco, cannabis e cocaína. As análises estatísticas compararam as respostas de jovens LGBTQIAPN+ e cisgêneros heterossexuais, ajustando para fatores como idade, sexo ao nascimento, cor de pele e classe socioeconômica. Do total de participantes, 247 se identificaram como LGBTQIAPN+.
Maiores Taxas de Consumo e Início Precoce
Os resultados revelaram maiores taxas de consumo para os quatro tipos de substâncias entre jovens LGBTQIAPN+. Cerca de 48% dos membros da comunidade usam tabaco (contra 37% dos cis-heterossexuais); 40% consomem cannabis (versus 27% entre os demais); e 7,4% usam cocaína (contra 3,6%). O consumo de álcool foi o único semelhante entre os grupos, com 85,9% para o primeiro e 83,7% para o segundo.
As análises também apontaram diferenças significativas em relação ao sexo de nascimento. Pessoas designadas como mulheres ao nascer relataram maior uso de tabaco, cannabis e cocaína, e iniciaram o consumo dessas substâncias mais cedo, em média, entre 10 e 15 anos de idade. Já as mulheres heterossexuais iniciaram entre 13 e 17 anos.
Um recorte específico sobre a orientação sexual demonstrou que as maiores taxas de uso foram observadas entre as mulheres bissexuais: 77,9% usam álcool; 26,3% tabaco; 56% cannabis e 9,2% cocaína. Não foram encontradas diferenças significativas em relação à cor da pele ou ao status socioeconômico dos participantes.
Estigma e Sofrimento Psicológico como Fatores Chave
A investigação científica conclui que jovens LGBTQIAPN+, especialmente mulheres bissexuais, enfrentam um risco ampliado de uso precoce e mais frequente de substâncias. Os pesquisadores acreditam que esses resultados sublinham a influência de fatores sociais e estruturais, como discriminação, estigma e exclusão social, no consumo de substâncias psicoativas entre esses jovens.
“Experiências de preconceito, rejeição e isolamento social aumentam o sofrimento psicológico, reduzem a busca por redes de apoio e serviços de saúde mental e podem acabar levando ao uso de drogas como ‘forma de enfrentamento’ entre jovens LGBTQIAPN+”, explica Caio Figueiredo, que atua como psiquiatra assistente no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP.
Recomendações e Políticas Públicas Inclusivas
Diante dos achados do estudo, o psiquiatra recomenda a implementação de estratégias de prevenção focadas no gênero e na diversidade sexual dos jovens brasileiros. “Ações devem ser integradas a programas escolares e comunitários, além de intervenções digitais que alcancem adolescentes em contextos de vulnerabilidade”, sugere Figueiredo.
O pesquisador espera que os dados coletados contribuam para a formulação de políticas públicas mais sensíveis e que “olhem com mais cuidado para realidades ainda tão estigmatizadas, principalmente entre populações marginalizadas e vulneráveis”. Ele enfatiza a importância de um olhar mais humanizado sobre a saúde da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil, defendendo uma ciência que se traduza em transformação clínica e social.
O artigo de Caio Petrus Monteiro Figueiredo, intitulado Patterns of substance use and initiation among LGBTQIAPN+ youth in Brazil: Evidence from a population-based cohort, foi publicado em 17 de abril. Em junho do ano passado, o psiquiatra foi agraciado com o Prêmio Jovem Pesquisador no Brain Congress 2025 pela apresentação deste estudo. Entre os autores do artigo, destacam-se outros pesquisadores do CISM, como Pedro Mario Pan, Euripedes Constantino Miguel, Luis Augusto Rohde e Giovanni Abrahão Salum.
Fonte: jornal.usp.br
