Milhares de Poços Artesianos em São Paulo Sob Risco de Contaminação por Resíduos Industriais, Alerta Estudo da USP

Um levantamento recente da Universidade de São Paulo (USP) revela um cenário preocupante para o abastecimento de água subterrânea na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP). Milhares de poços artesianos estão sob risco iminente de contaminação por resíduos industriais, uma ameaça que se torna ainda mais grave pela vasta quantidade de poços não registrados e a dificuldade em fiscalizar sua qualidade.

O estudo, conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (Cepas-USP), estima que, dos 2,5 mil poços devidamente cadastrados na RMSP, metade esteja localizada em antigas áreas industriais. Contudo, o verdadeiro desafio reside nos quase 10 mil poços não registrados na Grande São Paulo. “A falta desse registro dificulta o acompanhamento da qualidade química da água dos poços, e esse monitoramento é importante, considerando que muitos deles foram perfurados em áreas que antes eram ocupadas por indústrias ou em regiões adjacentes”, alerta Daphne Pino, pesquisadora do Cepas-USP e autora do artigo.

Ameaça Oculta sob a Metrópole: Contaminantes Invisíveis

A percepção comum de que água sem cheiro, cor ou gosto é potável é um engano perigoso, conforme explica Reginaldo Bertolo, professor do Instituto de Geociências e pesquisador do Cepas-USP. A contaminação da água subterrânea pode ser completamente imperceptível, tornando o risco ainda mais insidioso. Entre os contaminantes mais preocupantes, o professor destaca os solventes organoclorados, resíduos comuns de antigas atividades industriais e objeto principal do estudo publicado. Mesmo em pequenas concentrações, que passam despercebidas aos sentidos humanos, esses produtos químicos representam sérios riscos à saúde. A ingestão de água contaminada pode causar danos neurológicos, alterações no fígado e nos rins, e aumentar significativamente o risco de câncer, como detalha Daphne Pino. Além disso, a volatilidade dessas substâncias faz com que a inalação de seus vapores também seja um perigo adicional, especialmente em ambientes fechados.

O Desafio da Recuperação e a Urgência do Monitoramento

Apesar da gravidade da situação, há esperança para alguns poços. O artigo da USP identificou 1.902 casos de sucesso na recuperação de poços contaminados no Estado de São Paulo, em processos que demandaram, em média, 15 anos. O procedimento é meticuloso: inicia-se com a análise rigorosa da qualidade da água do poço e, caso a contaminação seja confirmada, o uso da água deve ser imediatamente interrompido. Posteriormente, são realizados estudos aprofundados para entender a origem e a extensão da contaminação, permitindo a definição das técnicas de gestão mais adequadas, que podem incluir remediação direta do solo e da água, implementação de medidas de engenharia ou adoção de medidas institucionais, como a restrição permanente do uso da água.

No entanto, é crucial ressaltar que, dependendo do tipo e da intensidade da contaminação, a água pode não ser recuperável para consumo humano. Por isso, o monitoramento constante e eficaz da qualidade da água é fundamental e insubstituível. A ausência de registro de tantos poços na Grande São Paulo impede esse acompanhamento essencial, deixando milhares de pessoas potencialmente expostas a riscos de saúde sem qualquer aviso ou conhecimento prévio.

Potencial Hídrico e a Necessidade de Preservação

Embora na Grande São Paulo apenas 18% do abastecimento de água tenha origem em poços artesianos, os aquíferos brasileiros possuem um enorme potencial para suprir as necessidades hídricas da população. A água subterrânea pode ser uma fonte segura e sustentável para consumo, desde que “as condições geológicas e também a preservação do solo e das áreas verdes” sejam rigorosamente respeitadas, aponta Reginaldo Bertolo. O pesquisador cita a Cidade Universitária da USP como um exemplo positivo: sua extensa área verde contribui para proteger naturalmente as águas subterrâneas da região, garantindo boa qualidade e um significativo potencial para abastecimento. A conscientização pública, a fiscalização rigorosa e a regulamentação eficiente são cruciais para garantir que esse recurso valioso seja protegido e possa ser utilizado de forma segura e sustentável para as futuras gerações da metrópole.

Fonte: jornal.usp.br

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