Mães Africanas em São Paulo: Filhos de Mulheres Nigerianas Enfrentam Dobro de Risco de Morte Infantil, Revela Estudo da USP
Pesquisa aponta que vulnerabilidade social, barreiras linguísticas e culturais contribuem para índices alarmantes, destacando a necessidade urgente de políticas públicas direcionadas.
Mães imigrantes vindas da África e da América Central em São Paulo enfrentam uma realidade desafiadora que se reflete em índices de mortalidade infantil significativamente mais altos do que os observados entre mães brasileiras. Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP) acende um alerta, revelando que os filhos de mulheres nigerianas, em particular, têm uma probabilidade de morte duas vezes maior em comparação com os de mães nascidas no Brasil.
Fatores de Risco e Vulnerabilidade Aprofundam Desigualdades
A tese de doutorado de Érica Ferreira, defendida na Faculdade de Saúde Pública da USP, detalha que diversos fatores estão associados a essas taxas elevadas. Parto cesáreo, maternidade na adolescência e gestações múltiplas foram identificados como elementos que, combinados com características sociodemográficas, amplificam o risco. O estudo apontou índices acima da média entre mães negras submetidas à cesariana e entre mães angolanas e nigerianas com gestações múltiplas, evidenciando a interseção de vulnerabilidades.
Érica Ferreira ressalta que a maior vulnerabilidade social dessas mulheres, somada a barreiras linguísticas e culturais, pode comprometer seriamente o acesso e a qualidade dos serviços de saúde. Muitas chegam ao Brasil em condição de refúgio, o que intensifica os desafios de integração e acolhimento, tornando a jornada da maternidade ainda mais árdua.
Desafios e Redes de Apoio: O Tempo Faz a Diferença
A pesquisa também destacou que o grau de vulnerabilidade varia conforme o tempo de estabelecimento das comunidades migrantes no país. Grupos com uma presença mais consolidada, como as comunidades boliviana e chinesa em São Paulo, não registram taxas tão elevadas de mortalidade infantil. “Essas ondas migratórias são mais antigas e, por isso, já contam com redes de apoio e acesso à saúde mais estruturados”, explica a pesquisadora, sublinhando a importância da formação de um suporte comunitário ao longo do tempo.
Informação para Salvar Vidas: A Urgência de Políticas Públicas
Atualmente, as políticas públicas voltadas especificamente para mães imigrantes ainda são limitadas. Contudo, iniciativas como a da cidade de São Paulo, que permite a emissão da Declaração de Nascido Vivo na língua materna da mãe – documento essencial para o registro civil –, representam um avanço crucial na coleta de informações mais precisas e na facilitação do acesso a direitos.
Para Érica Ferreira, a produção de dados de qualidade é um pilar fundamental para identificar e acompanhar grupos mais vulneráveis. “A partir dessas informações, é possível desenvolver políticas específicas para reduzir as desigualdades e, consequentemente, diminuir a mortalidade infantil”, conclui, reforçando que a compreensão aprofundada da realidade dessas mulheres é o primeiro passo para a criação de um sistema de saúde mais equitativo e eficaz.
Fonte: jornal.usp.br
