Conhecida mundialmente por sua efervescência constante, São Paulo é frequentemente chamada de ‘cidade que nunca para’. Seja dia ou noite, a capital paulista pulsa com uma diversidade de serviços, eventos e atividades. No entanto, essa imagem de movimento ininterrupto levanta questões cruciais sobre a qualidade de vida de seus habitantes, a acessibilidade desses serviços e os problemas inerentes a essa fama. Angela Pilotto, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, aprofunda a discussão sobre a mobilidade urbana na cidade e os desafios que se apresentam.
A Fama da Cidade que Não Para: Para Quem?
A professora Pilotto explica que a ideia de uma cidade que nunca para, já associada a metrópoles como Nova York, tende a apresentar a cidade como um ‘agente único e uniforme’. Contudo, essa percepção ignora a realidade de ‘um conjunto de agentes que vivem, usam, trabalham e moram na cidade’ e as profundas desigualdades em relação a esse movimento constante. ‘Quem consegue parar? Quem movimenta a cidade? Quem acelera? Quem tem a possibilidade também de ser lento para viver a cidade?’, questiona Pilotto, ressaltando que, embora o desenvolvimento industrial e tecnológico tenha associado positivamente a ideia de movimento e aceleração, hoje há movimentos sociais que reivindicam uma desaceleração e um tempo mais lento para usufruir da vida urbana.
O Preço do Rodoviarismo e a Cultura do Automóvel
A cultura do automóvel, fortemente impulsionada pelas políticas públicas brasileiras ao longo do século 20, é apontada como um dos principais agentes que possibilitam a São Paulo ser uma cidade 24 horas. O carro ampliou as possibilidades de locais e horários de deslocamento, conferindo uma sensação de liberdade e flexibilidade. Entretanto, essa liberdade vem acompanhada de sérios constrangimentos, como congestionamentos, poluição e acidentes.
Pilotto destaca a desigualdade intrínseca a esse modelo. ‘Nem todo mundo pode escolher o modo de transporte.’ O Metrô, por exemplo, o sistema de transporte coletivo mais eficiente da cidade, não atende a todas as regiões, especialmente as periferias. A limitação de renda impede que muitos optem pelo automóvel ou pela moto. Essa condição de mobilidade precária é generalizada, mas acentua as desigualdades: enquanto o congestionamento afeta a todos, o conforto e a segurança são desiguais. Motociclistas, ciclistas e pedestres estão sempre mais sujeitos a ferimentos graves em acidentes do que os motoristas de automóveis, evidenciando uma ‘mobilidade precária de forma generalizada, mas com marcadores relacionados com essa desigualdade’.
O Futuro da Mobilidade Urbana Paulistana
O cenário para a mobilidade urbana em São Paulo nos próximos anos é de grandes desafios, segundo Angela Pilotto. A pesquisa Origem e Destino do Metrô, divulgada em 2023, revelou um dado alarmante: pela primeira vez desde a década de 1960, o volume de viagens por transporte individual superou o de transporte coletivo. Essa inversão é um sinal preocupante para uma metrópole do porte de São Paulo, que já registra congestionamentos recordes, superando inclusive os padrões pré-pandemia de Covid-19. A professora alerta que a chegada de veículos elétricos, embora benéfica para a poluição, não resolverá o problema do congestionamento. ‘É um cenário bastante complicado’, conclui, indicando a urgência de repensar as estratégias de mobilidade para a capital.
Fonte: jornal.usp.br
