Exposição ‘Casa-Território’ na USP Redefine o Significado de Lar na Migração
Em um esforço para humanizar a experiência da migração, a exposição ‘Casa-Território//Território-Casa’ está em cartaz no Centro MariAntonia da USP, em São Paulo. A mostra, com entrada gratuita e aberta ao público até 27 de setembro, reúne obras de dez artistas de sete nacionalidades, que convidam o espectador a refletir sobre a condição humana diante de deslocamentos forçados e a complexa busca por um lugar no mundo.
Organizada pela Rede ArteRefúgio, um projeto da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a exposição busca ir além das estatísticas que frequentemente despersonalizam os migrantes. ‘Tentamos, numa contracorrente, abrir espaço para as pessoas se expressarem a partir da arte, mas também serem as próprias narradoras de suas histórias e interpretarem as suas próprias trajetórias’, afirma a professora Ana Carolina Maciel, da Unicamp e integrante da Rede ArteRefúgio.
A curadoria, um processo coletivo de dois anos coordenado pelo mestrando em Multimeios João Felipe Ferreira (Unicamp), envolveu alunos da universidade e pesquisadores externos. O título ‘Casa-Território//Território-Casa’ aponta para a interconexão intrínseca entre o espaço íntimo do lar e a dimensão ampla do território. ‘Você não consegue pensar a casa sem pensar o território e não consegue pensar o território sem pensar a casa’, explica Ferreira, ressaltando como as vivências pessoais são moldadas por condições objetivas como guerras e desastres naturais.
Vidas e Fronteiras: A Face Humana dos Deslocamentos
A exposição dá voz a histórias marcadas pela dor e pela resiliência. A artista colombiana Diana Akokán, que se tornou imigrante aos 8 anos, apresenta a série ‘Fayum na Fronteira’. Suas máscaras mortuárias são uma homenagem a pessoas que perderam a vida tentando cruzar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, como Júlio López López e Sirley Miranda. ‘Essa obra traduz como a busca pela fixação de um novo lar (…) às vezes é impedida por causa desses processos geopolíticos que impedem a mobilidade das pessoas’, comenta João Ferreira.
O cubano Zé Angel, radicado no Rio de Janeiro, utiliza suportes simbólicos em suas obras: mantas térmicas, distribuídas em situações de ajuda humanitária a migrantes. Suas pinturas exploram metáforas visuais de experiências migratórias caribenhas e a imagem de Nossa Senhora da Caridade, padroeira de Cuba, como um símbolo de esperança. O salvadorenho Herbert de Paz, por sua vez, reflete sobre o passado colonial e as frustrações políticas de seu país na série ‘Expatriados’, que reinterpreta artefatos ameríndios saqueados, buscando uma retomada crítica do passado pré-colonização para imaginar futuros alternativos.
Identidade, Memória e o Sonhar Político
A mostra também celebra a riqueza da identidade cultural e a memória coletiva. A artista indígena Camila Canela, da etnia Apanjêkra, expressa em suas telas um ‘realismo fantástico’ que denuncia violências coloniais e reconstitui o sonhar como um gesto político. Suas obras, como ‘Entre Tempos e Tempos, Tempo de Colher’ e ‘Pessoas Constroem Muros, Mas Eu Sou Kahhykwyú, Eu Sou Yunré’, destacam-se pelas cores vibrantes e profundo simbolismo.
Espejismo, artista paulistana de ascendência boliviana, usa colagens manuais para ‘deslocar imagens de personagens andinos, confrontando percepções estereotipadas enraizadas no imaginário colonial’. Seus trabalhos, como ‘Olho para Você e Vejo Um Pouco Mais de Mim’ e ‘Mapa de Rosto’, constroem uma sensibilidade atenta às vivências dessas comunidades. A venezuelana Oriana Pérez explora a textura de tecidos e estampas para revelar experiências de migração e pertencimento, sobrepondo trajes tradicionais a paisagens em painéis como ‘Segundo Deslocamento – El Apure y el San Francisco se Encuantram através do Rio do Céu’. O angolano Tata Bernardo, pintor autodidata, cria mosaicos em óleo sobre tela que articulam o humano com elementos culturais e vegetais da tradição africana, negra e afro-brasileira, em obras como ‘O Pouco que Você Tem’ e ‘Amigos com Benefício’.
Reflexões Contemporâneas sobre o Habitar
A exposição se aprofunda ainda em reflexões sobre a efemeridade e a instabilidade do espaço doméstico. Allan Rosário, de Americana (SP), apresenta a série ‘Imóvel’, com fotografias que abordam a relação entre o corpo e uma casa em ruínas, e ‘Cartografia do Corpo: Territórios Fragmentados’, xilogravuras que representam as mudanças na planta baixa de sua casa de infância.
A artista multimídia russa Oksana Rudko contribui com ‘Sussurro das Estrelas’, uma instalação sonora interativa. A obra recria um fenômeno siberiano – o som do congelamento instantâneo do ar exalado – por meio de gravações do farfalhar de grãos, coletadas por pessoas na América do Sul. A instalação, que remete à constelação Ursa Maior, evoca a memória de um som que se torna cada vez mais raro devido às mudanças climáticas. Por fim, o vídeo ‘Humilitas’ (2021), de Matheus Pires, de Brasília (DF), propõe uma reflexão sobre o simbolismo da palavra ‘casa’ no contexto da pandemia de covid-19.
A exposição ‘Casa-Território//Território-Casa’ é fruto de um extenso trabalho da Rede ArteRefúgio, vinculada à Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Unicamp, criada em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Os artistas foram selecionados por edital, e o projeto ofereceu um ‘ciclo de acompanhamento artístico’ para auxiliar no desenvolvimento profissional, focando em talentos emergentes.
‘O projeto tem foco em artistas emergentes. Alguns já estão num momento mais desenvolvido da carreira, mas a ideia era trazer artistas que estão começando ou que não tiveram tanta circulação ainda’, explica João Ferreira. A professora Ana Carolina Maciel complementa que o grupo é heterogêneo, com artistas que se deslocaram internamente no Brasil e outros vindos de ‘grandes crises mundiais’, todos com um ‘olhar individual que pode colaborar e agregar à nossa cena cultural, artística e social’.
A curadoria, ao longo do processo, buscou um fio condutor que transcende a migração como tema central, focando na ‘questão da casa, do lar, de como isso perpassa a experiência dos sujeitos que estão envolvidos em processos geográficos de habitação’.
A exposição ‘Casa-Território//Território-Casa’ pode ser visitada até o dia 27 de setembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, no Centro MariAntonia da USP, localizado na Rua Maria Antonia, 258, Vila Buarque, em São Paulo. A entrada é gratuita.
Fonte: jornal.usp.br
