A China, maior importadora de commodities agrícolas do mundo, está redefinindo sua estratégia de segurança alimentar, buscando reduzir drasticamente a dependência de produtos como soja e proteínas vegetais vindos do Brasil e dos Estados Unidos. Esse movimento, intensificado após 2013 com a chegada de Xi Jinping ao poder e as recentes tensões geopolíticas, serve como um alerta para o Brasil, cuja potência agroexportadora pode estar com ‘pés de barro’, segundo o especialista Ricardo Abramovay.
A Estratégia Chinesa de Soberania Alimentar
Para a China, a soberania alimentar é uma questão histórica e cultural, profundamente ligada à memória da grande fome do século 20, que ceifou milhões de vidas. Conforme explica Ricardo Abramovay, coordenador do projeto INCT Superar a Tríplice Monotonia do Sistema Agroalimentar da USP, a garantia de alimento para a população é um pilar fundamental da boa governança no país. A estratégia atual não visa zerar as importações, mas sim diminuir a vulnerabilidade externa através de investimentos massivos em produção industrial de proteínas e aminoácidos, desenvolvimento de bioinsumos e avanço tecnológico focado na transição energética e alimentar.
Os ‘Pés de Barro’ do Agronegócio Brasileiro
Enquanto a China busca autossuficiência, o Brasil permanece excessivamente dependente da exportação de commodities agrícolas, como soja e carne. Abramovay aponta uma fragilidade estrutural na base tecnológica do agronegócio nacional. ‘Hoje a base tecnológica da agricultura brasileira está fundamentada em produtos que, em primeiro lugar, são dependentes de importações’, ressalta o professor. Cerca de 90% dos fertilizantes sintéticos e agrotóxicos utilizados no país são importados. Além disso, a alta concentração de aditivos químicos na produção de grãos diminui seu teor alimentar, exigindo aditivos nas rações animais, muitos dos quais vêm da própria China. Essa dependência dupla, de insumos e de aditivos, revela uma vulnerabilidade tecnológica e econômica profunda, apesar do gigantismo agrícola.
O Custo Ambiental e a Demanda Global
A tecnologia predominante no setor agropecuário brasileiro é também altamente poluente. Fertilizantes sintéticos contribuem significativamente para a emissão de gases de efeito estufa, e agrotóxicos causam impactos negativos na saúde humana e no meio ambiente, além de estarem associados ao desmatamento. Com o mundo cada vez mais atento às questões ambientais e exigindo maior sustentabilidade nas cadeias produtivas, o modelo atual do Brasil se torna menos competitivo e mais arriscado. A pressão por alternativas mais sustentáveis é crescente e pode impactar diretamente o acesso do Brasil a mercados internacionais.
A Revolução da Agricultura Regenerativa como Saída
Diante desse cenário, Abramovay defende a urgência de uma ‘revolução da agricultura regenerativa’. Essa abordagem propõe que o agro opere em cooperação com os processos biológicos do solo, utilizando conhecimentos avançados sobre microrganismos, fungos, raízes e bioinsumos. O objetivo é recuperar a fertilidade da terra, reduzir drasticamente os impactos ambientais e diminuir a dependência de insumos importados. O professor enfatiza que não se trata de um retrocesso ao passado, mas sim da aplicação de ciência e inovação tecnológica de ponta para criar sistemas produtivos mais resilientes, sustentáveis e economicamente viáveis, alinhados às mudanças climáticas e às novas exigências do mercado global.
Fonte: jornal.usp.br
