Brasil: Muita Carga e Poucos Trilhos – O Alto Custo da Inação Ferroviária para a Economia e o Meio Ambiente

O Brasil, uma nação de dimensões continentais com uma vasta produção agrícola e mineral, enfrenta um paradoxo logístico que freia seu desenvolvimento: possui uma quantidade imensa de carga para transportar, mas uma malha ferroviária subdesenvolvida e ineficiente. Enquanto o transporte sobre trilhos oferece benefícios econômicos e ambientais incontestáveis, o país persiste em uma dependência excessiva das rodovias, pagando um preço elevado por essa inação.

As Vantagens Incontestáveis do Trilho

O transporte ferroviário é uma potência em eficiência. Uma única composição pode carregar entre 70 e 130 vagões, cada um com 70 a 120 toneladas, o que equivale a retirar centenas de caminhões das estradas em uma única viagem. Essa capacidade se traduz em uma eficiência energética 2,5 vezes superior à do transporte rodoviário e uma redução de 40% a 60% nas emissões de gases de efeito estufa por unidade transportada. Tais números posicionam as ferrovias como um pilar fundamental para a descarbonização do setor de transportes e a diminuição dos custos logísticos nacionais.

Um Retrato Desolador: Brasil em Comparação Global

Apesar desses benefícios evidentes, a realidade brasileira é desoladora quando comparada a outras grandes nações. Enquanto a China possui 9,5 km de ferrovia por mil km² de área e os Estados Unidos contam com impressionantes 23 km por mil km², o Brasil amarga apenas 3,5 km por mil km². Nossa malha se assemelha à de países africanos, composta por “linhas de penetração” que ligam o interior aos portos, sem formar uma rede densa e integrada. Estamos presos na primeira fase do desenvolvimento ferroviário, sem uma verdadeira rede, mas sim linhas isoladas.

A Perigosa Concentração de Cargas e o Agronegócio em Xeque

A fragilidade do sistema ferroviário brasileiro é agravada pela concentração de cargas. Cerca de 75% de todo o volume transportado por trem é minério de ferro. O agronegócio, vital para a economia, representa apenas 20% das movimentações, com os grãos correspondendo a 10% e o açúcar a meros 3,1%. Contêineres, que poderiam diversificar a carga, mal atingem 1,2%. Essa dependência de uma única commodity torna o sistema vulnerável e ineficiente. Para piorar, entre 2010 e 2023, a participação ferroviária no transporte de soja para exportação despencou de 47% para 33,4%, enquanto a dependência de caminhões cresceu. No mercado doméstico, mais de 97% dos grãos são movimentados por rodovias, contrariando as metas de longo curso dos planos nacionais de infraestrutura.

O Preço da Inação: Impactos Econômicos, Ambientais e Sociais

Um estudo recente do Esalq-Log projeta os custos da inação e os benefícios da expansão ferroviária. Do ponto de vista econômico, a expansão geraria economias anuais de frete entre R$ 8,74 bilhões e R$ 40,10 bilhões. Os ganhos acumulados no PIB poderiam variar de R$ 13,6 bilhões a R$ 74,7 bilhões até 2035, e de R$ 41,6 bilhões a R$ 232,3 bilhões até 2050. Para cada R$ 1,00 investido em transportes, o país acumularia de R$ 0,60 a R$ 2,00 de PIB adicional em 2035 e entre R$ 2,00 e R$ 6,00 em 2050. Além disso, a arrecadação fiscal aumentaria significativamente, sem a necessidade de novos tributos.

Ambientalmente, a migração de cargas das rodovias para as ferrovias evitaria a emissão de 2,5 milhões a 8,3 milhões de toneladas de CO₂ anualmente a partir de 2035, representando uma redução de até 9,2% das emissões do setor de transportes de cargas. Em um cenário de crescente pressão internacional por descarbonização, a ferrovia surge como uma resposta estratégica.

No âmbito social, o custo é talvez o mais subestimado. A falta de ferrovias penaliza desproporcionalmente os mais vulneráveis: o agricultor que recebe menos pela produção devido ao frete caro, a família que paga mais pelos alimentos, e os municípios distantes que permanecem desconectados, afastando investimentos e empregos. A expansão ferroviária geraria ganhos de consumo real maiores justamente nos estratos de menor renda, configurando-se como uma política eficaz de redução da desigualdade social e regional.

Os números são claros: investir em ferrovias no Brasil é não apenas viável, mas urgente. O custo econômico, ambiental e social de não agir é conhecido e elevado para a sociedade brasileira. Se a inação persistir, o cenário em 2035 será o mesmo, ou pior: mais carga, menos trilho e mais poluição, perpetuando um ciclo de oportunidades perdidas para o desenvolvimento nacional.

Fonte: jornal.usp.br

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