Copa do Mundo: Bilhões em Investimento, Legado Duradouro e os Desafios do Retorno Financeiro para Países-Sede

Sediar uma Copa do Mundo é um empreendimento que exige investimentos bilionários, impactando profundamente as nações anfitriãs. Embora o retorno financeiro imediato nem sempre corresponda às expectativas iniciais, o legado de um megaevento esportivo pode ir muito além dos números, abrangendo infraestrutura, projeção internacional e estímulo ao turismo. No entanto, a concretização desses benefícios depende diretamente de um planejamento estratégico e de uma gestão transparente dos recursos.

O Alto Custo de Sediar a Copa

Os valores investidos para sediar uma Copa do Mundo são expressivos. Para a edição de 2026, que será compartilhada por Canadá, Estados Unidos e México, a estimativa é que os três países apliquem cerca de US$ 14 bilhões. Esse montante, consideravelmente inferior aos mais de US$ 200 bilhões desembolsados pelo Catar para a Copa de 2022, reflete uma realidade apontada por Eun Yung Park, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP: países com infraestrutura já consolidada tendem a ter custos de preparação menores. “A necessidade de ampliar sistemas de transporte, a rede hoteleira e até a capacidade dos estádios faz com que os custos aumentem para os países-sede”, explica a pesquisadora, destacando que a base existente é um fator determinante nos gastos.

Retorno Financeiro: Expectativa vs. Realidade

Grandes eventos esportivos frequentemente geram a expectativa de um forte aquecimento econômico, especialmente para setores como hotelaria, comércio e serviços. Contudo, Park adverte que essas projeções devem ser analisadas com cautela, pois, historicamente, os resultados financeiros ficaram abaixo do esperado. Para a Copa de 2026, a FIFA projeta uma movimentação de cerca de US$ 13 bilhões. Mesmo assim, antes do início do torneio, o setor hoteleiro já demonstra preocupação com o volume de reservas aquém do previsto, indicando que o impacto econômico direto pode não ser tão robusto quanto o imaginado.

O Legado Além dos Números do PIB

Mesmo quando o retorno financeiro imediato não se materializa conforme o esperado, a realização de uma Copa do Mundo pode deixar legados intangíveis, mas de grande valor. A exposição internacional que o país-sede ganha fortalece sua imagem global, estimula o turismo nos anos subsequentes e pode atrair novos investimentos. “Isso fortalece a imagem internacional, ajuda o turismo depois e pode até facilitar futuros investimentos. É um ganho real, mas que não aparece diretamente no PIB”, afirma a professora Eun Yung Park. Essa projeção de longo prazo, que não se traduz imediatamente em crescimento do Produto Interno Bruto, é um dos principais argumentos a favor da sediagem desses eventos.

Planejamento e Transparência: Lições Essenciais

A experiência da Copa do Mundo de 2014 no Brasil serve como um alerta sobre a importância do planejamento adequado e da transparência. As manifestações que questionavam a prioridade de investimentos no evento em detrimento de áreas sociais revelaram que, sem um plano bem estruturado, parte dos recursos pode não gerar benefícios duradouros. “No Brasil isso ficou bem claro. Houve investimento pesado em estádios e em algumas obras de mobilidade, mas muitos projetos de transporte urbano e de saneamento acabaram atrasando ou nem saíram do papel”, analisa Park. A pesquisadora enfatiza que a principal lição é a necessidade de acompanhar os gastos, identificar os financiadores e verificar quais investimentos realmente beneficiaram a população. Exemplos como o Estádio Mané Garrincha, em Brasília, e desafios similares enfrentados pelo Catar, que se tornaram “elefantes brancos” após os torneios, reforçam a urgência de uma gestão que priorize o legado sustentável para a população.

Fonte: jornal.usp.br

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