Desvendando ‘Taracá’: Como o Neologismo de Jorge Drexler Une Fonética, Ritmo e a Arte de ‘Estar Aqui e Agora’ na Música Uruguaia

A capacidade humana de moldar e reinventar a linguagem é um fenômeno contínuo, presente tanto na literatura quanto na música. Grandes nomes da nossa língua, como Guimarães Rosa, nos brindaram com pérolas como “sussurruído”, descrevendo o som de múltiplas vozes em segredo. Mais recentemente, Conceição Evaristo enriqueceu nosso vocabulário com “escrevivência” e composições por justaposição, como “corpo-escrita” e “vida-liberdade”. Mas a criatividade linguística não conhece fronteiras, e é cruzando a divisa que nos separa de nossos vizinhos hispanohablantes que encontramos o mais recente neologismo a intrigar linguistas e amantes da música: “taracá”, cunhado pelo cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler.

A Aférese: O Corte na Língua que Cria Novas Palavras

O processo de criação de “taracá” envolve fenômenos fonéticos comuns em diversas línguas, incluindo o português. Um deles é a aférese, que consiste na supressão da primeira sílaba de uma palavra. No cotidiano brasileiro, é fácil encontrar exemplos: “você” vira “cê”, “espera” se torna “péra”, e “entendeu” é abreviado para “tendeu”. Essas reduções são tão corriqueiras que muitas vezes nem as percebemos.

Historicamente, a aférese também desempenhou um papel crucial na evolução do português. Em “Os Lusíadas”, de Camões, encontramos “alevantar”, forma que, por aférese do “a-” inicial, deu origem ao nosso “levantar” atual. Fenômenos semelhantes ainda persistem em variantes regionais do Brasil, onde se ouvem “ajuntar” e “alembrar” ao lado de “juntar” e “lembrar”. No caso de “taracá”, o neologismo de Drexler, a aférese é um dos pilares de sua formação: a expressão “estar acá” (que significa “estar aqui”) perde o “es-” inicial do verbo, tornando-se “tar acá” antes de um próximo passo fonético.

Fusão Fonética: A União dos Sons em “Taracá”

Além da aférese, “taracá” é resultado de um processo de fusão fonética, ou coalescência, onde segmentos sonoros se unem. Em português, esse movimento transformou a expressão “ir em boa hora” em “ir embora” ao longo do tempo. Na fala informal, “espere aí” frequentemente se condensa em “peraí”, combinando redução e fusão prosódica. É exatamente essa combinação de aférese e fusão que opera em “estar acá”, dando origem ao sonoro e singular “taracá”.

Do ponto de vista puramente fonético, a formação do termo já seria um estudo fascinante, mostrando como a língua se reinventa. No entanto, a beleza de “taracá” reside não apenas em sua estrutura gramatical, mas também em sua profunda semântica e na forma como Drexler a utiliza. O termo transcende a mera sonoridade para evocar um estado de ser.

O Ritmo do Tambor Chico e a Semântica da Presença

“Taracá” não é o título de uma canção específica no álbum homônimo de Jorge Drexler, mas ressurge de forma marcante na faixa “El tambor chico”. Neste contexto, o “tambor chico” é um instrumento de percussão fundamental no candombe uruguaio, responsável por marcar o tempo e ditar o ritmo. Drexler, com sua genialidade lírica, usa o neologismo para descrever o som que esse tambor produz.

Em versos como “Con su cadencia tocadora (taracá, taracá, taracá)/ Que te hace estar acá y ahora (taracá, taracá, taracá)”, o compositor estabelece uma ponte engenhosa entre forma e conteúdo. O ato de tocar – ou ouvir – o tambor exige atenção e presença, um conceito que hoje se popularizou como “mindfulness”. O som repetitivo do tambor (“taracá, taracá, taracá”) não é apenas uma onomatopeia; ele se converte em um significante para o significado de “estar acá”, ou seja, de estar presente, no agora.

Iconicidade: Quando a Forma Sonora Imita o Conteúdo

Dessa forma, “taracá” desafia um dos princípios fundamentais da linguística: a arbitrariedade do signo linguístico. Em vez de ser uma conexão arbitrária entre som e significado, “taracá” manifesta um fenômeno conhecido como iconicidade. Isso ocorre quando a forma de uma expressão linguística “imita” ou “reflete” seu conteúdo. Há uma iconicidade imagética em “taracá” ao evocar diretamente o som percussivo do tambor.

Além disso, podemos identificar uma “iconicidade pragmática”. A forma sonora, ao imitar o rufar do tambor, não apenas descreve, mas também atua sobre o ouvinte, conduzindo-o a um estado de “estar presente”. A palavra, em sua própria estrutura e som, se torna um convite à atenção plena, uma experiência sensorial e mental que se alinha perfeitamente com a mensagem da canção.

A criação de “taracá” por Jorge Drexler nos recorda que as palavras não servem apenas para nomear o mundo que já existe, mas também para forjar novos modos “de ser e de estar”, como canta um famoso poeta da nossa música. A aférese e a fusão fonética são habilmente mobilizadas para transformar “estar acá” em “taracá”, convertendo o som de um tambor em linguagem e a linguagem em uma experiência de presença. Unindo forma e conteúdo de maneira tão rica, Drexler nos convida a perceber algo que a própria evolução da língua sempre evidenciou: falar a língua de um determinado tempo e lugar é, em si, uma forma intrínseca de estar. Nossa variedade linguística contemporânea torna-se, assim, um reflexo e uma ferramenta para estar aqui e agora.

Fonte: jornal.usp.br

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