O temor de que a Inteligência Artificial (IA) pudesse “roubar empregos” rapidamente deu lugar a uma realidade mais complexa: a demissão de profissionais que não sabem utilizá-la e a busca urgente por aqueles que a dominam. Superado o deslumbre inicial com as ferramentas de IA generativa, o mercado de trabalho se depara com um paradoxo: sobram vagas em tecnologia e estratégia, mas faltam especialistas capazes de trabalhar em colaboração com os algoritmos.
Diante desse cenário, a requalificação (reskilling) tornou-se uma corrida contra o tempo. O diferencial competitivo não é mais apenas operar a tecnologia, mas dominá-la com pensamento crítico, curadoria e ética. Segundo César Alexandre de Souza, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuaria (FEA) da USP, empresas que demitiram por um excesso de otimismo na automação agora precisam recontratar ou requalificar sua força de trabalho para lidar com essa nova tecnologia.
A Nova Requalificação: Além do Básico da IA
O mercado de trabalho exige uma nova postura dos profissionais. Adriana Caldana, docente da área de Recursos Humanos pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP), enfatiza que é crucial saber quais IAs são mais relevantes para cada área e que as empresas devem investir em treinamentos específicos. “Saber fazer bom uso delas hoje é uma competência essencial para qualquer profissional”, afirma.
Contudo, o desafio vai além da operação. Souza ressalta que a principal dificuldade é a habilidade de interpretar dados. Enquanto a IA facilita tarefas básicas como relatórios e planilhas, a exigência de análise crítica aumenta. As empresas buscam profissionais com um domínio completo do negócio, um conhecimento amplo do mundo real para analisar criticamente os resultados e as facilidades que a IA oferece. “A inteligência artificial pode propor soluções, mas para implementá-las no mundo real são necessárias pessoas. Esse é o paradoxo da IA, ela vai ressaltar cada vez mais o aspecto humano do profissional”, pontua Souza.
Soft Skills e Hard Skills: O Duo Essencial na Era Digital
A filtragem de competências no mercado atual abrange tanto o plano comportamental quanto o digital. Adriana Caldana explica que as chamadas soft skills — competências como relacionamento, resistência à pressão, resiliência e trabalho em equipe — continuam sendo foco das empresas. Paralelamente, as hard skills — uso de novas tecnologias e metodologias ágeis — tornaram-se igualmente cruciais. É fundamental que o profissional apresente esse leque de habilidades.
A mera inclusão de palavras-chave relacionadas à IA no currículo não é suficiente. “Ao longo de um processo seletivo, o setor de Recursos Humanos da empresa vai ter condições de checar se, de fato, a pessoa apenas colocou aquela informação no currículo ou se ela possui conhecimento, e quais resultados obteve ao utilizar o sistema específico. Dessa forma, o profissional tem que mostrar um portfólio de uso dessas tecnologias para realmente se destacar”, alerta Caldana.
Inovação e Geração: Rompendo Barreiras da Adaptação
A expansão da IA não está isenta de críticas e resistências. No ambiente educacional, o receio é o uso da ferramenta como atalho, comprometendo o aprendizado. No corporativo, as incertezas giram em torno da substituição de mão de obra e da perda de autonomia intelectual, um cenário que pode gerar hesitação em profissionais mais experientes.
Entretanto, Adriana Caldana observa que o receio dos profissionais mais velhos não se deve à falta de capacidade de aprendizado, mas sim à responsabilidade em relação à propriedade intelectual, plágio, privacidade e segurança de dados. “Hoje é perceptível que profissionais sêniores estão muito conscientes da necessidade de atualização tecnológica contínua e vão atrás de cursos para se requalificarem nas novas competências digitais da atualidade”, acrescenta. Souza reforça que o clima em torno da IA é mais de entusiasmo do que de resistência, com ferramentas cada vez mais intuitivas. Isso cria uma oportunidade fantástica para o compartilhamento de conhecimento entre gerações, unindo as habilidades digitais dos mais jovens à experiência e ao pensamento crítico dos mais velhos.
Fonte: jornal.usp.br