Em 1986, Diego Maradona protagonizou um dos lances mais emblemáticos da história do futebol, o gol que ficou conhecido como ‘La mano de Dios’. Após a partida contra a Inglaterra, na Copa do Mundo, o próprio craque argentino admitiu que o gol foi marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”. Quatro minutos depois, ele faria o que muitos chamam de ‘Gol do Século’, garantindo a vitória da Argentina por 2 a 1 e abrindo caminho para o título mundial. Este episódio, mais do que um erro de arbitragem, transformou-se em um mito, alimentado por imagens televisivas e diferentes interpretações: do árbitro em campo, de Maradona, da imprensa e das memórias nacionais de torcedores argentinos e ingleses.
O Mito da ‘Mão de Deus’ e a Promessa do VAR
A crença popular sugere que a existência do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) teria encerrado imediatamente a controvérsia, identificando a infração e anulando o gol, restabelecendo a ‘justiça’ esportiva. No entanto, essa suposição atribui à tecnologia uma capacidade que ela, por si só, não possui. O VAR pode amplificar a percepção, reconstruir movimentos e fornecer novos elementos para uma decisão, mas não elimina a interpretação. Ele, na verdade, modifica o local, o tempo e os agentes envolvidos nesse processo interpretativo.
A Complexidade do Olhar Eletrônico: Seleção e Sentido
Criado para corrigir ‘erros claros e óbvios’ ou identificar ‘incidentes graves não percebidos’, o sistema do VAR depende intrinsecamente das imagens disponíveis, dos ângulos escolhidos, da velocidade da reprodução, dos protocolos de intervenção e das avaliações humanas. O árbitro assistente de vídeo (VAR) coordena uma equipe na sala de operações que, com o apoio de assistentes e operadores de replay, identifica incidentes para checagem e seleciona as imagens consideradas relevantes para a revisão.
Mesmo antes de o árbitro de campo observar o monitor, uma operação interpretativa crucial já ocorreu. Alguém definiu que um lance merecia revisão, estabeleceu o ponto inicial da jogada, escolheu os ângulos a serem exibidos e decidiu a velocidade das imagens. A câmera registra movimentos, mas não estabelece sozinha o significado do que registra. Entre o acontecimento, sua transformação em imagem e a decisão final, persistem sucessivos atos humanos de seleção, enquadramento e atribuição de sentido.
Nesse contexto, a reflexão de Jürgen Habermas, em ‘Técnica e ciência como ideologia’, torna-se pertinente. Habermas argumenta que a técnica assume uma função ideológica quando escolhas permeadas por valores, interesses e relações de poder são apresentadas como resultados necessários de procedimentos objetivos. A racionalidade técnica, assim, tende a ocultar o momento da decisão, substituindo uma escolha discutível por uma conclusão supostamente determinada por especialistas, dados ou máquinas. No VAR, essa operação se manifesta quando a imagem tecnológica é recebida como se falasse por si mesma, adquirindo uma autoridade superior à percepção humana, como se apresentasse o próprio lance sem ambiguidade.
Controvérsias da Copa de 2026: O VAR em Debate
As controvérsias observadas na Copa de 2026, por exemplo, evidenciam a persistência da interpretação. A reportagem ‘Mission Creep: FIFA’s Embrace of Technology Backfires in Controversy-Riven World Cup’ da Reuters, destacou episódios que geraram acusações de inconsistência, excesso de intervenção e falta de transparência. A expressão ‘mission creep’ descreve a expansão progressiva do campo de atuação do VAR, que, de corrigir erros evidentes, passou a examinar contatos mínimos e a reconstruir longos trechos de jogadas.
Em um jogo contra Portugal, um gol da Croácia, que poderia levar a partida para a prorrogação, foi anulado após um sensor na bola identificar um contato mínimo na origem da jogada, alterando o instante do passe e, consequentemente, a posição de impedimento. Em outra partida, na derrota por 3 a 2 para a Argentina, a Federação Egípcia apresentou uma reclamação formal à FIFA contra a anulação de um gol por uma infração anterior e a não marcação de um possível pênalti. O jornalista Jason Gay, do The Wall Street Journal, criticou o sistema em seu artigo ‘The World Cup’s Awful Instant Replay System Must Be Destroyed’, apontando a transformação da revisão em uma investigação retrospectiva quase ilimitada.
Nas quartas de final, em um confronto contra a Suíça, uma intervenção do VAR mostrou que a controvérsia não se limita à detecção de posições ou contatos. O árbitro de campo havia advertido Leandro Paredes por uma falta, mas, após a revisão, concluiu que o suíço Breel Embolo havia simulado. O cartão de Paredes foi retirado e transferido para Embolo, que já estava advertido e acabou expulso. O The Guardian repercutiu a reação suíça e a discussão sobre o emprego da regra de ‘identidade equivocada’ para autorizar a revisão.
Esses episódios, embora distintos, revelam que o VAR não entrega uma decisão pronta. No caso croata, foi necessário interpretar um sinal microscópico do sensor; diante do Egito, definir até onde a revisão poderia retroceder na jogada; contra a Suíça, reinterpretar o contato e determinar a punição. A tecnologia ampliou a visibilidade dos lances, mas a relevância do que foi visto continuou dependendo de regras, protocolos e julgamentos humanos.
A Eterna Batalha Pelo Significado do Jogo
O VAR pode corrigir erros evidentes e ampliar as informações disponíveis, mas não transforma o futebol em uma ciência exata. Categorias como intencionalidade, intensidade, interferência, simulação e ‘erro claro e óbvio’ continuam sendo interpretativas. A tecnologia não substitui o árbitro; ela redistribui sua autoridade entre o campo, a sala de vídeo, os operadores, os protocolos e os sistemas de medição.
É nesse sentido que o novo encontro entre Argentina e Inglaterra, em um futuro hipotético, recupera a memória de Maradona. Em 1986, uma mão decisiva escapou ao olhar do árbitro; em 2026, sensores, câmeras e revisões podem localizar contatos que quase nenhum olhar humano perceberia. De um lado, a insuficiência da visão; de outro, a hiperprodução de imagens e dados. Nos dois casos, contudo, permanece a mesma questão: quem interpreta o que ocorreu e segundo quais critérios?
‘La mano de Dios’ e o VAR não representam, portanto, a passagem simples de um futebol sujeito ao erro para outro governado pela certeza. Eles expressam dois regimes diferentes de visibilidade. Em 1986, o acontecimento foi decidido no instante da percepção do árbitro e reinterpretado posteriormente pelas imagens, pela frase de Maradona e pela memória coletiva. No futebol contemporâneo, a interpretação é distribuída em tempo real por uma rede complexa composta por árbitros, monitores, câmeras, sensores, operadores e protocolos. A tecnologia não encerra a controvérsia; reorganiza as condições em que ela se produz.
Atualmente, essa memória funciona também como uma tradição inventada. Jornais, emissoras, plataformas digitais, dirigentes e patrocinadores reconstroem confrontos históricos como batalhas épicas. O futebol oferece a dramaturgia; Maradona, o mito; e o VAR, a expectativa de uma arbitragem capaz de impedir que outro gesto controverso decida a partida. Essa narrativa transforma o jogo em um espetáculo global, mobilizando ressentimentos históricos e afetos nacionais para ampliar audiência, engajamento e valor comercial.
A rivalidade, assim como a imagem tecnológica, não é simplesmente verdadeira ou falsa: é selecionada, enquadrada e atualizada por processos de interpretação. O VAR não emite a ‘verdade’, mas a simula, funcionando como um simulacro da verdade. No futebol contemporâneo, nem a mão de Deus nem o olho eletrônico falam por si mesmos. Entre o corpo que toca a bola, a câmera que registra, o sensor que mede e o árbitro que decide, permanece a disputa humana pelo significado do jogo.
Fonte: jornal.usp.br
