Um estudo inovador liderado pela Faculdade de Medicina (FM) da USP trouxe à luz uma dimensão alarmante da febre de Oropouche, estimando que o vírus pode ter infectado até 200 vezes mais pessoas do que os casos oficialmente registrados em algumas regiões, como Manaus. A pesquisa, publicada na prestigiada revista Nature Medicine, calcula que mais de 9,4 milhões de infecções ocorreram na América Latina e no Caribe entre 1960 e 2025, com o Brasil respondendo por cerca de 5,5 milhões.
A Subnotificação Alarmante do Oropouche
A discrepância entre o número estimado de infecções e os casos notificados é expressiva e multifacetada. A principal razão reside na baixa detecção da doença, especialmente em áreas remotas da Amazônia, onde o acesso aos serviços de saúde é limitado e pode exigir viagens de mais de 24 horas. Além disso, uma parcela considerável das infecções por Oropouche é assintomática ou apresenta sintomas leves, dificultando o diagnóstico. “Apenas uma pequena proporção das pessoas infectadas desenvolve a doença, o que amplia a diferença entre o número de infecções e casos registrados”, explica Erika Manuli, pesquisadora da FMUSP.
Transmitida por maruins (Culicoides paraensis), a febre de Oropouche manifesta sintomas semelhantes aos da dengue, mas pode evoluir para quadros graves, incluindo complicações neurológicas, materno-fetais e, em casos extremos, risco de morte. Atualmente, não há vacina nem tratamento antiviral específico disponível para a doença.
Manaus: Epicentro e Padrão de Avanço do Vírus
A capital amazonense, Manaus, desempenhou um papel crucial na recente expansão do vírus. Análises realizadas em doadores de sangue revelaram que, entre o final de 2023 e meados de 2024, a proporção de pessoas com anticorpos contra o Oropouche mais que dobrou, saltando de 11,4% para 25,7%. A cidade também vivenciou dois grandes surtos, com um intervalo de 42 anos (1980-1981 e 2023-2024), ambos atingindo mais de 12% da população e com picos durante a estação chuvosa.
O estudo aponta que fatores como a alta densidade populacional e o transporte aéreo contribuíram significativamente para a disseminação do Oropouche para novas áreas. O vírus já foi identificado em todos os estados brasileiros, em países do Caribe e em casos associados a viagens para a Europa e América do Norte, demonstrando sua capacidade de rápida propagação.
Um Vírus Rural com Desafios Urbanos de Controle
Um segundo estudo do mesmo grupo, publicado simultaneamente na Nature Health, destaca um padrão de transmissão distinto para o Oropouche em comparação com outras arboviroses como dengue, chikungunya e zika. Enquanto estas últimas estão predominantemente associadas a ambientes urbanos e ao mosquito Aedes aegypti, o Oropouche ocorre majoritariamente em áreas rurais e próximas a florestas, onde há maior presença de maruins, que dependem de ambientes com alta umidade.
Essa característica levanta um alerta crucial: as estratégias atuais de controle de vetores, que focam principalmente em mosquitos urbanos, são insuficientes para conter o avanço do vírus Oropouche. “Monitorar a presença de anticorpos na população é fundamental para entender a dinâmica de transmissão e orientar estratégias de saúde pública, incluindo o desenvolvimento de vacinas”, afirma a professora Ester Sabino, do Departamento de Patologia da FMUSP.
Consequências Graves e a Urgência da Saúde Pública
Os pesquisadores enfatizam a seriedade das descobertas. “Estamos diante de uma doença com magnitude muito maior do que se imaginava, o que requer mais atenção”, disse José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Unicamp e coautor dos estudos, à Agência Fapesp. Ele destaca que “um em cada mil diagnósticos da doença evolua para complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”.
A pesquisa, que contou com o apoio de instituições como Wellcome Trust, NIH, Fapesp e MCTI, sublinha a necessidade urgente de revisão e ampliação das políticas de saúde pública para enfrentar o Oropouche, que, longe de ser uma ameaça menor, representa um desafio significativo e subestimado para a saúde global.
Fonte: jornal.usp.br
