Vidas no Tempo: Como Kevin Birth e Laerte Sznelwar Desvendam a Complexidade da Medição e Percepção Humana do Tempo
Uma análise profunda sobre a evolução dos nossos marcadores temporais, seus impactos na saúde e bem-estar, e a busca por uma Ergonomia mais humana.
A forma como percebemos e medimos o tempo é uma das mais profundas influências em nossa existência. Desde a observação dos ciclos naturais até a precisão dos relógios atômicos, o tempo molda nossas ações, comportamentos e até mesmo nossa biologia. A busca por entender essa relação fascinante motivou reflexões que perpassam as ciências sociais, a filosofia, a biologia e a física. Nesse contexto, o professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP, destaca a obra ‘Objects of Time’, de Kevin K. Birth, professor de Antropologia do Queens College – CUNY, como um divisor de águas em sua compreensão do tema. O livro, indicado pelo crono-biólogo Luiz Menna Barreto (EACH-USP), abre portas para um universo de relações científicas até então desconhecidas, complementadas por uma vasta gama de palestras e publicações do próprio Birth disponíveis online.
Da Observação Natural à Tirania do Relógio
Historicamente, a humanidade buscou no ambiente natural as pistas para marcar o fluxo temporal. Na Europa medieval, sem a luz do sol, o movimento das estrelas possivelmente serviu para indicar as horas noturnas. No entanto, o desenvolvimento das culturas nos levou a uma transição marcante: trocamos as medidas de tempo associadas aos ciclos da natureza por aquelas provenientes de objetos manufaturados. Essa mudança criou a ‘ilusão de correspondência perfeita’ entre oscilações de pêndulos e as voltas da Terra ao redor do Sol. Hoje, a primazia do despertador sobre o nascer do sol é um exemplo contundente dessa inversão. O alarme, muitas vezes, interrompe ciclos vigília-sono essenciais para o metabolismo, gerando uma desconexão entre o tempo imposto e as necessidades biológicas individuais.
O Impacto na Saúde e a Visão Humanizada da Ergonomia
A cronobiologia nos ensina que, embora organismos apresentem sistemas temporais com períodos aproximadamente uniformes, existem ‘diferenças individuais notáveis’ em escala circadiana. Essas variações naturais, resultantes da interação entre seres vivos e seus ambientes, provocam heterogeneidades relevantes de pessoa para pessoa. Ignorá-las pode levar a distúrbios de saúde física e mental, um problema que, felizmente, tem recebido maior atenção atualmente. Essa conscientização marca, talvez, o início da ‘humanização das disciplinas relativas à ergonomia’, ecoando as críticas atemporais de Charlie Chaplin em seu filme ‘Tempos Modernos’ (1936). O professor Piqueira, ao revisitar a obra de Chaplin após ouvir o colega Laerte Idal Sznelwar (1956-2025) falar sobre Ergonomia com notável senso de humanidade, percebeu que a visão atual do tempo é ‘pouco consistente com a vida’, sendo um mero resultado da sedimentação de ideias sobre a duração de eventos.
As Múltiplas Faces da Medida do Tempo
Nossos parâmetros de medidas temporais são fruto de uma complexa teia de raciocínios lógicos e influências culturais. Alguns derivam de nossa atração por múltiplos de dez (décadas, séculos, milênios), outros de um desejo incessante por precisão (relógios atômicos). Há também a confluência de visões religiosas com a astronomia, que deu origem ao calendário Gregoriano. E ainda persistem legados de civilizações antigas, como a divisão do dia em 24 segmentos pelos egípcios e a subdivisão de horas e minutos em 60 segmentos pelos babilônios. Essa miscelânea de origens revela a arbitrariedade por trás de um sistema que hoje consideramos universal.
Resgatando os Ritmos da Vida: Lições da Natureza e dos Povos Indígenas
A vida em nosso planeta, um milagre de eventos improváveis, sugere unidades de tempo muito mais orgânicas e interessantes: o intervalo de oviposição de insetos cavernícolas, o tempo para o estabelecimento do ciclo vigília-sono em bebês, ou o período para um álamo-prateado atingir sua altura máxima. Embora seja ‘pouco sensato’ adotar essas medidas como padrões universais para a organização diária, pensar em seus valores e como podem ‘participar de atitudes que preservam as diversas e preciosas vidas é de grande importância’. A Ergonomia de Laerte Sznelwar, por exemplo, nos convida a observar as fadigas de trabalhadores em diversas funções, reconhecendo a impossibilidade de estabelecer padrões únicos para atividades e fisiologias tão distintas. Robin Wall Kimmerer, em ‘O Fruto da Generosidade’, oferece o exemplo da Amelanchier (amora do Pacífico), uma planta que serve como ‘marcador de passagem do tempo’ para povos indígenas, sincronizando suas estações e movimentos de acordo com a disponibilidade de alimentos. Observar e valorizar os tempos relacionados aos fenômenos naturais pode ser a chave para a preservação da vida e para uma existência mais harmoniosa com o nosso próprio ritmo biológico.
Fonte: jornal.usp.br
