A biomédica Teresa Luzembo alcançou um feito histórico ao se tornar a primeira pesquisadora angolana a obter titulação no âmbito da parceria firmada entre a Universidade de São Paulo (USP) e o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação de Angola. Sua defesa de mestrado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) consolida um novo capítulo na formação de docentes e pesquisadores do país africano e reforça os laços de cooperação Sul-Sul.
Teresa integrou o primeiro grupo de bolsistas a desembarcar no Brasil em junho de 2024. Desde então, dedicou-se integralmente à pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica da FMRP, sob a orientação do professor Fausto Bruno dos Reis Almeida. Dois anos após sua chegada, em 2 de junho, ela defendeu com sucesso sua dissertação intitulada “Perfil de nanopartículas séricas na malária e sua associação com grupos sanguíneos ABO e variabilidade clínica”.
Desvendando a Malária: Uma Pesquisa com Impacto Global
A pesquisa de Teresa Luzembo possui relevância direta para Angola e outros países tropicais, onde a malária ainda é uma das principais causas de morbidade e mortalidade. O estudo investigou a relação entre nanopartículas séricas (estruturas minúsculas que atuam como mensageiras biológicas no sangue) e a gravidade da malária, analisando como essa relação pode variar de acordo com o grupo sanguíneo ABO, o sexo e a condição gestacional.
Ao analisar amostras de soro sanguíneo de pacientes com malária e indivíduos saudáveis, a equipe observou que o perfil dessas nanopartículas difere entre os grupos e pode ter correlação com o tipo sanguíneo ABO. Os resultados reforçam evidências de que o fator ABO pode oferecer certa proteção contra as formas mais severas da doença. Esse achado promissor abre caminho para o desenvolvimento de biomarcadores que permitam identificar precocemente pacientes com maior risco de complicações, uma ferramenta de alto valor para o sistema de saúde angolano. A pesquisadora e seu orientador já trabalham para publicar os resultados em periódicos científicos de renome.
Inspiração e Desafios: A Jornada de Teresa Luzembo
Natural da província do Uíge, em Angola, Teresa Antônio Luzembo é biomédica e funcionária do Ministério da Saúde angolano, vinculada ao Complexo Hospitalar de Doenças Cardiopulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento. Mãe de duas filhas, ela descreve a família como sua maior motivação para enfrentar os desafios da formação no exterior. “Ser a primeira estudante do Acordo USP-Angola a chegar ao Brasil, a concluir e a defender uma dissertação de mestrado representa não apenas uma conquista pessoal, mas também um marco para a cooperação acadêmica entre os dois países. Espero que essa realização possa inspirar outros estudantes angolanos a acreditarem no seu potencial”, afirmou Teresa.
Seu interesse pelas doenças infecciosas e pela saúde pública, áreas cruciais para Angola, foi o fio condutor que a levou ao mestrado na FMRP. A pesquisadora foi aprovada no processo seletivo para o doutorado e continuará sua formação científica na USP, com o objetivo de levar para Angola não apenas o título, mas o conhecimento e a perspectiva científica construídos no Brasil.
Fortalecendo Laços: O Impacto da Cooperação USP-Angola
Para o professor Fausto Almeida, orientador de Teresa, a diversidade de trajetórias como a da pesquisadora angolana enriquece o ambiente científico. “Ter alguém que vivencia de perto a realidade da malária contribui para ampliar nossa compreensão sobre os desafios clínicos, epidemiológicos e sociais relacionados à doença. Isso torna todas as discussões científicas mais ricas e conectadas com as necessidades da população”, explica. Ele ressalta que a cooperação internacional, como a exemplificada por Teresa, produz ciência de qualidade e forma pesquisadores capazes de gerar impacto em seus países e além deles.
Acordo USP-Angola: Uma Ponte para o Conhecimento
O Acordo USP-Angola, firmado em fevereiro de 2024, é resultado de uma parceria entre a USP e o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação de Angola. O programa oferece bolsas para a formação em pós-graduação de docentes e pesquisadores angolanos, integrando o Projeto de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, financiado por um empréstimo de US$ 90 milhões do Banco Africano de Desenvolvimento. O objetivo principal é formar recursos humanos altamente qualificados, fortalecer a pós-graduação, a pesquisa científica e a inovação em Angola.
A iniciativa abriu as portas da USP para 128 bolsistas angolanos – 10 para pós-doutorado, 65 para doutorado e 53 para mestrado – distribuídos por diversas áreas do conhecimento. Segundo o pró-reitor de Pós-Graduação, Carlos Eduardo Ambrósio, o programa tem grande importância estratégica para a consolidação de uma Rede Sul-Sul, com benefícios mútuos para Brasil e Angola. Além desse convênio, outra parceria foi firmada entre a USP e o Instituto de Especialização em Saúde de Angola para reforçar a formação de profissionais de saúde no país africano.
Fonte: jornal.usp.br
