Sociobiodiversidade na Terra Indígena Mangueirinha: Pinhão e Erva-Mate Protegem Araucárias e Geram Renda Sustentável para Kaingang e Guarani no Paraná
Pesquisa da USP, desenvolvida junto à comunidade, destaca a gestão de recursos naturais e práticas culturais como chaves para o bem-estar socioeconômico e a conservação ambiental em um dos maiores remanescentes de araucária do mundo.
A Terra Indígena Mangueirinha, localizada no Paraná, é um ecossistema complexo e vital, lar das etnias Kaingang e Guarani, além de populações não indígenas. Este território abriga um dos últimos e mais extensos remanescentes de araucária (Araucaria angustifolia) nativa do planeta. Foi neste cenário que a bióloga Ariadne Dall’acqua Ayres, em sua tese de doutorado pela USP, investigou a intersecção entre o bem-estar socioeconômico e a preservação ambiental, focando na gestão de recursos naturais e na sobrevivência cultural frente à devastação.
Sociobiodiversidade: O Caminho para a Renda Sustentável
Um dos achados mais significativos da pesquisa foi o consenso entre os grupos sobre a necessidade de melhoria econômica e geração de renda. Esse “cluster econômico” tornou-se um foco central, explorando alternativas sustentáveis já presentes no território que, com fortalecimento e regulação, podem se tornar fontes de renda robustas. A chave para esse desenvolvimento reside na sociobiodiversidade, definida por Ariadne como os elementos da natureza que possuem significado cultural, uso tradicional ou relação intrínseca com a comunidade.
No Sul do Brasil, o pinhão (semente da araucária) e a erva-mate são espécies centrais desse sistema, formando a base alimentar e cultural local. A pesquisadora colaborou diretamente na estruturação de projetos para buscar financiamento para a cadeia da erva-mate, atendendo a uma demanda do cacique. A grande vantagem dessas cadeias de valor é que elas permitem o retorno financeiro com a “floresta em pé”, eliminando a necessidade de desmatamento. Essa abordagem representa uma alternativa sustentável ao arrendamento de terras e à venda de madeira, atividades de alto impacto ambiental que, apesar do retorno financeiro imediato, comprometem o futuro do território.
A Herança da Degradação e a Desvalorização Ambiental
O estudo também lança luz sobre as raízes históricas da degradação ambiental na comunidade, apontando que práticas predatórias foram, muitas vezes, impulsionadas pelo próprio Estado brasileiro. Durante o período da ditadura militar, órgãos como o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) mantinham postos militares na região e promoviam o arrendamento de terras e o corte de madeira. Indígenas não recebiam qualquer remuneração ou compensação pela degradação, gerando um profundo sentimento de abandono e desvalorização dos serviços ambientais que as comunidades prestam ao proteger recursos vitais, como a água e a biodiversidade, beneficiando toda a sociedade.
Ciência que Escuta e Colabora
Para conduzir a investigação de maneira ética e colaborativa, a bióloga, como pesquisadora não indígena, adotou ferramentas da antropologia e da ecologia. A pesquisa foi estruturada cronologicamente, analisando os últimos 40 anos de transformações no território com o apoio de dados secundários e do sistema MapBiomas. Um dos pilares do estudo foi a aplicação da metodologia Ethnographic Future Research, construindo cenários futuros com base nos desejos e temores da comunidade. Foram realizadas oficinas com jovens e entrevistas com adultos das seis aldeias que compõem a Terra Indígena Mangueirinha.
Inicialmente, o plano era focar estritamente na conservação da biodiversidade, mas o contato com as lideranças indígenas alterou o rumo do trabalho. “No momento em que visitei a terra indígena, a comunidade expressou a importância do desenvolvimento de estratégias para a questão socioeconômica, pois isso estava muito atrelado com a conservação da floresta”, explica Ariadne. Assim, a tese foi delineada a partir de uma demanda direta da comunidade, demonstrando a importância de uma ciência que realmente ouve.
Construindo um Futuro Juntos
Durante seu período de imersão, a pesquisadora utilizou a observação participante para compreender o “microcosmo” da comunidade, superando um desafio inicial de ser vista com cautela pelos moradores, que questionavam se sua presença era para protegê-los ou apenas “olhar para os pinheiros e proteger os macaquinhos”. Ariadne ressalta a honra de ser recebida e ter suas histórias compartilhadas, emocionando-se ao transcrever as entrevistas e perceber a confiança depositada.
Diante da complexidade encontrada, a bióloga enfatiza que o papel da ciência deve ser o de dar voz a essas demandas e retornar os resultados para a comunidade. Ela planeja retornar ao território para apresentar as descobertas e produzir um livro de memórias, registrando toda a história e as perspectivas futuras da terra indígena. Este trabalho pioneiro reforça a urgência de valorizar o conhecimento tradicional e as práticas de manejo indígena como soluções eficazes para a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.
Fonte: jornal.usp.br
