O Brasil encontra-se em um impasse crítico, navegando sem um plano estratégico claro para o futuro, uma falha que o impede de explorar seu vasto potencial e se posicionar como uma potência global. A análise de Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, destaca a urgência de o país adotar uma abordagem planejada, similar àquelas que impulsionaram o desenvolvimento de nações asiáticas e até mesmo os Estados Unidos.
A Ascensão Asiática Pelo Planejamento Detalhado
O desenvolvimento espetacular da Coreia do Sul serve como um estudo de caso emblemático. Em apenas 40 anos, o país transformou-se de uma nação com renda per capita inferior à brasileira para um dos mais desenvolvidos do mundo. Esse salto não foi acidental, mas resultado direto de planos e políticas industriais governamentais meticulosos. A fabricação pioneira de telefones celulares, carros, televisores e uma gama de produtos eletrônicos foi cuidadosamente planejada, abrangendo desde a identificação de setores prioritários até a formação de engenheiros qualificados.
Essa visão estratégica não é exclusiva da Coreia do Sul. China, Japão e Taiwan também implementaram políticas industriais detalhadas, que previam com precisão tudo o que seria necessário para alcançar o sucesso, incluindo investimentos em capital humano e infraestrutura.
Até os EUA se Dobram ao Planejamento
A necessidade de planejamento estratégico transcendeu ideologias. Os Estados Unidos, tradicionalmente defensores do livre mercado, revisaram sua postura. No início do governo Biden, foi promulgada uma política industrial abrangente, detalhando prioridades setoriais, incentivos governamentais, linhas de crédito e estímulo à formação profissional. Essa abordagem, que se manteve mesmo com as mudanças de governo sob Trump, demonstra a universalidade da importância de um plano de desenvolvimento nacional.
O Vasto Potencial Brasileiro em Espera
Diante desses exemplos, o Brasil contrasta dramaticamente. O país possui oportunidades singulares para se tornar uma grande potência, mas as ignora por falta de estratégia. A biodiversidade da Floresta Amazônica, por exemplo, poderia posicionar o Brasil como um líder global na produção de remédios, novos alimentos e materiais avançados através da biotecnologia. No entanto, para isso, seriam necessários profissionais altamente qualificados na região Norte, capacidade de pesquisa robusta e incentivos para empresas brasileiras atuarem nesse campo. Mas, acima de tudo, é preciso um plano e uma estratégia.
A transição energética é outra área de imenso potencial. Com uma matriz energética 75% limpa (água, sol, vento), o Brasil está em uma posição privilegiada. Países europeus já sinalizam punições a empresas que não utilizam energia limpa, e a União Europeia incentiva a instalação de fábricas em locais com fontes renováveis. Essa é uma clara oportunidade para o Brasil atrair multinacionais engajadas na sustentabilidade. Contudo, a ausência de uma política ativa e um plano para capitalizar essa vantagem significa que nada está sendo feito.
A Estratégia: Pilar do Sucesso Nacional
Assim como no mundo corporativo, onde empresas sem estratégia fracassam, para as nações, a elaboração e execução de planos estratégicos são ainda mais cruciais. Os exemplos asiáticos e a recente mudança de postura dos EUA reforçam essa máxima. O Brasil, sem uma estratégia bem definida e aplicada, corre o risco de permanecer estagnado, incapaz de alcançar seu verdadeiro potencial no cenário global.
Fonte: jornal.usp.br
