A terceira edição do Rome Nutrition Week 2026 (RNW26), sob o tema “Moldando o Futuro da Ação Nutricional Conjunta em um Mundo em Mudança”, reuniu presencial e virtualmente atores de diversos setores. O objetivo central foi discutir caminhos práticos para a coordenação, financiamento e cooperação interagencial em nutrição e sistemas alimentares.
Ao longo de quatro dias, o evento abordou, de forma articulada, a importância de evidências e inovação para a transformação dos sistemas agroalimentares, o alinhamento dos fluxos de financiamento para integrar a nutrição às agendas de investimento, o papel das soluções alimentares locais e a necessidade de atuar como um sistema unificado. Tais arranjos multinível e multissetoriais são cruciais para gerar progresso mensurável em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às Metas Globais de Nutrição.
Dados Robustos: A Base para Políticas Eficazes
O primeiro dia do evento ressaltou que dados robustos são uma condição essencial para a formulação de políticas mais eficazes. Pesquisa de ponta, inovação tecnológica e informação qualificada foram apresentados como a base para compreender as complexas relações entre dietas saudáveis, equidade, resiliência climática e saúde planetária, permitindo antecipar desafios e identificar soluções que gerem múltiplos benefícios entre diferentes setores. Uma constatação que ecoou durante a semana foi: “temos as informações, mas não temos os dados”, evidenciando a lacuna na conversão de conhecimento em ferramentas acionáveis.
Ferramentas inovadoras foram apresentadas para preencher essa lacuna. O Cost and Affordability of a Healthy Diet (CoAHD) quantifica o custo e a acessibilidade de dietas saudáveis, fornecendo um panorama operacional do acesso à alimentação adequada. Já o Policy Optimization Tool (PolOpT) auxilia governos na otimização do gasto público em políticas agroalimentares, identificando alocações mais eficazes dentro das restrições fiscais de cada país. A FAO também avançou com as Food Systems-Based Dietary Guidelines (FSBDG), diretrizes que integram saúde, sustentabilidade e equidade em uma abordagem sistêmica.
A mensagem central do evento foi clara: um único indicador não é suficiente. É fundamental combinar métricas, monitorar a inflação de alimentos e romper os “silos” entre agências, disciplinas e níveis de governo. Este princípio também se aplica à academia e aos centros de pesquisa, onde problemas complexos exigem a combinação de diversas expertises, e não soluções isoladas. Essa lógica orienta redes como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (INCT Combate à Fome), que articula pesquisadores de diferentes áreas em torno de uma agenda comum.
Brasil em Destaque: Políticas e Metodologias Exitosas
O Brasil marcou presença na RNW26 não apenas como um exemplo de políticas públicas de sucesso, mas também como um produtor de metodologia inovadora. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) foi citado em uma sessão dedicada à alimentação escolar inclusiva, diversificada e local, que contou com a participação da primeira-dama Rosângela (Janja) Lula da Silva e da presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Fernanda Pacobahyba. Outras iniciativas brasileiras que ganharam destaque foram o renomado Guia Alimentar para a População Brasileira e a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades.
Ferramentas Brasileiras para a Tomada de Decisão Estratégica
Durante as discussões, foram lembradas duas importantes referências brasileiras, desenvolvidas por membros do INCT Combate à Fome, que transformam o debate em método. O Índice Multidimensional de Sistemas Alimentares Sustentáveis Revisado para o Brasil (MISFS-R) avalia a sustentabilidade dos sistemas alimentares em 26 estados e capitais, utilizando 46 indicadores nas dimensões social, nutricional, ambiental e econômica. Complementarmente, o Multidimensional Food Insecurity Index (MUFII) propõe 12 indicadores alinhados aos ODS para quantificar a insegurança alimentar de forma sistêmica nos 27 estados brasileiros, revelando uma piora generalizada entre 2018 e 2022, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país.
Ao expandir o diagnóstico da fome para além de métricas unidimensionais, o MUFII oferece uma estrutura replicável para monitorar a insegurança alimentar e identificar prioridades de política em diferentes contextos nacionais. A mensagem final é clara: não basta apenas saber que a má nutrição persiste. É imperativo ter sistemas capazes de indicar onde agir e com quais instrumentos. As iniciativas brasileiras nessa direção demonstram que o País tem um papel crucial a desempenhar, contribuindo globalmente na transformação de evidências em ferramentas concretas para a tomada de decisão.
Fonte: jornal.usp.br
