A busca pela imortalidade acadêmica foi uma das últimas grandes batalhas na vida de Roberto Campos. Conhecido por sua inteligência afiada, seu estilo provocador e sua vasta contribuição à política e economia brasileiras, o ‘Bob Fields’ nutria um desejo profundo de ser reconhecido pela Academia Brasileira de Letras (ABL). Sua jornada, no entanto, foi marcada por reviravoltas, derrotas amargas e uma vitória conquistada em meio a intensa polêmica, pouco antes de sua morte.
Primeiras Tentativas e o Peso do Passado
Em 1991, Roberto Campos fez sua primeira investida à ABL, ao lado de Celso Lafer. A disputa pela vaga de João de Scantimburgo era complexa, com a maioria dos acadêmicos já declarada ao professor e jornalista paulista, levando ambos a desistir. A oportunidade ressurgiu meses depois, com a vacância da cadeira de Francisco de Assis Barbosa. Desta vez, o embate foi contra Sérgio Paulo Rouanet, colega de Itamaraty e então Ministro da Cultura, criador da Lei de Incentivos Fiscais que levava seu nome. Rouanet era uma figura querida, especialmente nos círculos culturais, e muito mais jovem e ‘límpido’ de polêmicas que Campos.
O Brasil vivia o auge da redemocratização, e a Constituição de 1988 era recente. A primeira presidência civil após os militares buscava se afastar do passado, e Roberto Campos, um expoente do governo Castelo Branco, enfrentava o estigma de sua associação com o regime militar. Essa desvantagem o levou à derrota por apenas cinco votos, um revés que o mergulhou em profunda desilusão.
A Catarse de ‘A Lanterna na Popa’ e o Impeachment de Collor
A amarga derrota na ABL impulsionou Roberto Campos a dedicar-se à sua obra-prima, ‘A Lanterna na Popa’. Concluído e lançado em 1994, o livro, com mais de mil páginas, tornou-se um testamento memorial e um acontecimento cultural inesperado. A obra humanizou ‘Bob Fields’, revelando a curiosidade do público sobre o diplomata, embaixador, ministro, senador e deputado que tanto havia contribuído para o Brasil. Em 1994, ano do Plano Real e da vitória de Fernando Henrique Cardoso, ‘A Lanterna na Popa’ não apenas consolidou seu legado, mas também lhe rendeu o prestigiado Prêmio José Ermírio de Morais da Academia, reacendendo o ânimo para uma nova tentativa na ABL.
Antes disso, Campos ainda protagonizaria um momento decisivo na política nacional. Inicialmente entusiasmado com Fernando Collor e suas ideias liberais, rompeu com o presidente após o confisco da poupança. Mesmo gravemente enfermo, internado com intoxicação alimentar às vésperas da votação do impeachment em 1992, fez questão de comparecer ao Congresso em cadeira de rodas para votar ‘com o relator’, um gesto que selou o fim do governo Collor e a sua própria volta ao Rio para convalescença.
O Trágico Acaso que Abriu o Caminho
Incentivado por amigos como Raquel de Queiroz, Jorge Amado e Antonio Olinto, Roberto Campos aguardava a abertura de uma nova vaga na ABL. A oportunidade surgiu de forma trágica em 1999, com a morte súbita do dramaturgo Alfredo Dias Gomes, ocupante da cadeira 21. Dias Gomes, aos 76 anos e no auge de sua vida e arte, havia jantado em São Paulo após um espetáculo e, com pressa de retornar ao hotel para escrever, dispensou o táxi credenciado. Em uma conversão arriscada e proibida, o carro em que estava colidiu violentamente com um ônibus. Sem cinto de segurança, o autor de ‘O Pagador de Promessas’ faleceu instantaneamente, em um acidente que chocou o país e abriu a porta para o derradeiro capítulo da busca de Roberto Campos pela imortalidade.
A Eleição Contestada e a Consagração Final
Aos mais de 80 anos, Roberto Campos, embora aguerrido, enfrentava a fragilidade de sua saúde, com sucessivos infartos. Contudo, lançou-se à vaga de Dias Gomes com a determinação de quem não tinha mais nada a perder. A candidatura, porém, gerou uma resistência sem precedentes e uma virulência que surpreendeu a todos. Setores da imprensa e da cultura consideraram sua intenção um ‘escárnio’. Bernadeth Lyzio, viúva de Dias Gomes, chegou a prometer retirar os restos mortais do marido do mausoléu da Academia caso Campos fosse eleito, uma posição ecoada pelos filhos do dramaturgo. A controvérsia inflamou o noticiário e levou Campos a hesitar em manter a candidatura.
No entanto, convencido pelo presidente da ABL, Arnaldo Niskier, ele persistiu. Roberto Campos foi eleito, ingressando finalmente na imortalidade acadêmica. Meses depois, em 9 de outubro de 2001, o embaixador e economista faleceria, mas não sem antes ser empossado, concretizando um desejo que pautou seus últimos anos de vida e consolidando seu lugar na história da cultura brasileira.
Fonte: jornal.usp.br
