Policiamento Preditivo e Viés Racial: Estudo da USP Desvenda Como Sistemas Digitais Reforçam Desigualdades em São Paulo e Nova York

Policiamento Preditivo e Viés Racial: Estudo da USP Desvenda Como Sistemas Digitais Reforçam Desigualdades em São Paulo e Nova York

Tese de doutorado compara o uso de tecnologias de vigilância em duas das maiores cidades do mundo, revelando que algoritmos podem perpetuar e intensificar a seletividade racial e a violência de Estado.

A crescente adoção de sistemas digitais no policiamento, muitas vezes apresentados como ferramentas neutras e eficientes, está sob o escrutínio de uma nova pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Uma tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP revela que o chamado “policiamento preditivo” e outras formas de vigilância orientada por dados podem, na verdade, reproduzir e até intensificar desigualdades raciais e sociais.

A Não Neutralidade dos Algoritmos no Policiamento

A pesquisadora Letícia Pereira Simões Gomes, responsável pelo estudo, investigou como o uso de grandes volumes de informações para guiar decisões e estratégias policiais impacta diferentes grupos sociais. Para isso, ela analisou as práticas da Polícia Militar de São Paulo e do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), nos Estados Unidos. A escolha se deu por serem instituições de grandes centros urbanos que recebem constantes modernizações tecnológicas. “Eu identifiquei que havia uma certa interação entre as preocupações das duas corporações”, comentou Gomes.

A metodologia da pesquisa, inicialmente qualitativa com entrevistas e análises documentais, foi expandida para incluir questionários remotos com policiais norte-americanos, aprofundando a compreensão sobre a dinâmica dessas tecnologias no campo.

Vigilância Seletiva: O Modelo de Nova York

Em Nova York, o policiamento orientado por dados não é uma novidade, com métodos de quantificação sendo utilizados desde a década de 70. Atualmente, a cidade emprega tecnologias avançadas como sensores, leitores de placa e câmeras de reconhecimento facial. Segundo Gomes, a vigilância com esses recursos é desproporcionalmente concentrada em bairros com maioria não branca. Essa prática cria uma densidade de dados diferenciada entre grupos sociais, resultando em uma “produção e digitalização de dados que vão contribuir para produzir determinadas representações e memórias coletivas sobre pessoas e territórios”. Em outras palavras, a tecnologia não apenas registra, mas também molda a percepção de quem é criminoso e onde o crime ocorre.

O Cenário em São Paulo: Controle de Circulação e Alvos Específicos

No contexto paulista, a dinâmica difere em alguns aspectos. Letícia Gomes explica que o foco principal não está tanto na vigilância de regiões periféricas ou marginalizadas, mas sim em áreas centrais da cidade. O objetivo é controlar a circulação de pessoas. Contudo, essa estratégia leva a uma intensificação da vigilância sobre pessoas negras, especialmente quando são percebidas como “fora do lugar” nesses espaços. A Polícia de São Paulo utiliza diversos sistemas, como o Copom On-line, o Muralha Paulista e o Infocrim, que, embora modernizem a gestão, não eliminam os vieses históricos.

Tecnologia como Legitimadora de Práticas Históricas

A conclusão da pesquisadora é contundente: as inovações tecnológicas no policiamento servem, em grande parte, para legitimar a atuação policial. Elas não rompem com modelos marcados pela violência de Estado e pela desigualdade no tratamento de populações periféricas e negras. Enquanto essas tecnologias são promovidas como modernas, eficientes e capazes de melhorar a segurança pública, elas paradoxalmente reforçam práticas históricas de controle social e seletividade racial. O estudo da USP, portanto, lança luz sobre a necessidade de questionar a suposta neutralidade da tecnologia e de reconhecer como ela pode ser utilizada para perpetuar estruturas de poder e desigualdade.

Fonte: jornal.usp.br

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