A abolição da escravidão no Brasil não significou o fim das adversidades para a população negra. Novos dados de um projeto de pesquisa revelam que a escravidão, o baixo crescimento populacional e as altas taxas de mortalidade infantil impactaram negativamente a inserção de pessoas negras no mercado de trabalho rural no período pós-abolição. Essas informações preliminares fazem parte do estudo “Quando o Campo Conta”, que mergulha em documentos de sete propriedades rurais e núcleos coloniais em São Paulo e no Vale do Paraíba fluminense, abrangendo do final do século XIX à metade do século XX.
A iniciativa é coordenada por Bruno Gabriel Witzel de Souza, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, e Thales Augusto Zamberlan Pereira, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP). “Temos algumas evidências de que havia fazendas empregando tanto mão de obra imigrante quanto mão de obra doméstica, que potencialmente poderiam ser ex-escravizados. Não foi simplesmente um grupo entrando e outro saindo, como se aprendeu anteriormente”, destaca Thales Augusto.
Desvendando um Cenário Complexo
Os pesquisadores enfrentam dados fragmentados, mas utilizam a mortalidade infantil como uma métrica crucial para desvendar as reais condições de vida da população. “As taxas de mortalidade, em especial a infantil, entre crianças negras eram dramaticamente mais elevadas do que entre crianças brancas. Estamos vendo um reflexo do passado, e a pergunta que fazemos é se isso resultou de falta de oportunidade ou de fatores estruturais, por exemplo”, explica Thales Augusto. Para Bruno Gabriel, o objetivo é testar hipóteses sobre a escravidão e o pós-abolição que, embora conhecidas, ainda não foram confirmadas empiricamente, prometendo mudar as perspectivas sobre esse período.
O Legado da Desvantagem Histórica
A escravidão impôs dois grandes entraves ao desenvolvimento das populações negras: barreiras de acesso ao mercado de trabalho e aspectos demográficos. Bruno Gabriel aponta que famílias negras eram, em média, menores – cerca de três pessoas – em comparação com as famílias de imigrantes italianos, que chegavam a ter seis ou sete membros, com crianças começando a trabalhar nas lavouras de café já aos 5 ou 7 anos. Essa desvantagem histórica foi um fator significativo na época. O projeto busca não apenas recuperar e preservar, mas também disponibilizar gratuitamente e online esses documentos históricos.
A iniciativa visa coletar microdados para o estudo da história econômica e social, compreendendo como se deu a consolidação de um mercado de trabalho rural livre em São Paulo ao longo do século XIX – incluindo escravidão e pós-abolição – e seu desenvolvimento no século XX, especialmente entre as décadas de 1950 e 1970.
Preservação Digital e Novas Perspectivas
Financiado pelo Modern Endangered Archives Program da University of California, Los Angeles (UCLA) Library, o projeto “Quando o Campo Conta” é uma evolução de uma pesquisa anterior de 2019, que resultou na criação de um arquivo físico e digital da Fazenda Ibicaba, em Cordeirópolis (SP). “Criamos um arquivo físico e digitalizamos todo o material dessa propriedade, que foi a primeira a empregar sistematicamente trabalhadores europeus”, relata Bruno Gabriel. Os documentos da Fazenda Ibicaba já estão acessíveis para consulta online.
A importância do estudo reside na análise da escravidão, imigração e pós-abolição a partir de dados em nível individual, e não apenas municipal. Os pesquisadores reforçam a necessidade de que mais proprietários disponibilizem seus documentos para ampliar o entendimento do mercado de trabalho daquele período. “Pensamos em um passado distante, do século XIX ou início do XX, mas livros dos anos 1950, 1960 e 1970 serão extremamente importantes em duas gerações. No futuro, os pesquisadores terão todo esse material prontamente disponível para estudo. Será fantástico!”, conclui Bruno Gabriel. Os pesquisadores convidam proprietários rurais e conhecedores de documentação histórica no interior do Brasil a entrar em contato, destacando que mesmo um único livro contábil da metade do século XX pode ser uma peça valiosa para o quebra-cabeça.
Mais informações podem ser obtidas com Bruno Witzel (bwitzelsouza@usp.br) e Thales Pereira (thales.pereira@fgv.br).
Fonte: jornal.usp.br
