Pesquisa da USP Desvenda Como o Racismo Institucional Nega o Direito à Saúde da População Negra no SUS do Grande ABC

Uma pesquisa de mestrado da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP lança luz sobre um tema crucial e, muitas vezes, negligenciado: a negação do direito à saúde para a população negra, impulsionada pelo racismo institucional. O estudo, conduzido pela psicóloga Geralda Aparecida, com base em sua experiência de cinco anos na Atenção Primária à Saúde (APS) na região do Grande ABC, em São Paulo, analisou a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) no Sistema Único de Saúde (SUS) e como o racismo gera desigualdades no acesso e na qualidade do atendimento.

A dissertação, intitulada Racismo e produção do cuidado no SUS: um olhar para a atenção primária em saúde, foi apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da FSP/USP, sob a orientação de Maria Cristina Prado Louvison. Atualmente, Geralda atua como articuladora de Atenção Básica na região, auxiliando gestores municipais a identificar prioridades e qualificar os serviços da APS, a “porta de entrada” dos usuários no SUS.

O Reconhecimento do Racismo Institucional e a PNSIPN

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), instituída pelo Ministério da Saúde em 2009, é um marco histórico, resultado de anos de mobilização do movimento negro. Seu objetivo principal é assegurar o reconhecimento das necessidades específicas da população negra no acesso aos serviços do SUS, validando o racismo institucional como um determinante social das condições de saúde.

Contudo, a existência da política não garante, por si só, sua efetivação. A implementação da PNSIPN ainda enfrenta enormes desafios. Dados do Ministério da Saúde (2024) são alarmantes: 66% dos municípios brasileiros não incluem ações da PNSIPN em seus planos de saúde, e 69% não oferecem temas sobre saúde da população negra nos programas de educação permanente para profissionais da área.

Em entrevista, Geralda Aparecida enfatiza que a capacitação dos profissionais precisa ir além do conhecimento da política. É fundamental que a formação seja voltada para o cuidado das populações nos territórios de atuação, com uma análise específica de cada vulnerabilidade. A própria pesquisadora foi instigada a investigar a PNSIPN ao perceber sua ausência nas pautas de reuniões e espaços profissionais que frequentava, decidindo então expor como os serviços de saúde podem tanto favorecer quanto perpetuar o racismo pela negligência das determinações sociais.

O Grande ABC como Campo de Investigação

As pesquisas de campo ocorreram entre maio de 2024 e fevereiro de 2025, com o propósito de registrar as trajetórias de vida, experiências de saúde e percepções dos indivíduos, especialmente da população negra. A região do Grande ABC, composta pelos municípios de Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, com uma população conjunta de quase 2,7 milhões de habitantes (Censo IBGE, 2022), foi escolhida por diversos motivos.

Além da proximidade da pesquisadora, a região se destaca pelo desenvolvimento de políticas de saúde, com algumas cidades servindo como laboratórios para novos sistemas do Ministério da Saúde. A heterogeneidade entre os municípios também prometia informações valiosas. O Grande ABC é pioneiro no Estado de São Paulo, contando com um programa de ouvidoria racial desde 2021, que visa aproximar o serviço das vítimas de discriminação.

A investigação foi dividida em duas etapas. A primeira envolveu um questionário online para gestores da APS da região. Com base nas respostas, dois municípios foram selecionados para a segunda fase, inicialmente por parecerem ter mais iniciativas da política. No entanto, essa constatação foi refutada, pois em uma das cidades, os programas informados eram genéricos, sem distinção para a população negra. Para garantir a confidencialidade, Geralda os denominou Luanda e Benin em seu estudo. A segunda fase consistiu em entrevistas com quatro grupos: gestores da APS, atores mobilizadores da política (AMP), profissionais da Estratégia de Saúde da Família e usuários do SUS.

Barreiras e a Descontinuidade na Implementação

Os resultados da primeira etapa confirmaram o panorama nacional de fragilidade na implementação da PNSIPN, com seis dos sete gestores relatando a inexistência de linhas de cuidado específicas para a população negra. A pesquisa denuncia, ainda, a distribuição desigual dos recursos do SUS. Geralda observa que municípios com melhor situação socioeconômica conseguem estruturar equipes maiores e recebem mais financiamento, enquanto aqueles com maior vulnerabilidade e desigualdade não conseguem oferecer um SUS suficiente para sua população.

Essa disparidade impede que a população já vulnerável acesse serviços integrais de saúde, impactando a estrutura física, a quantidade e a qualificação das equipes, reduzindo significativamente o alcance populacional do SUS. A rotatividade de gestores, influenciada por mudanças políticas e eleitorais, também foi identificada como um fator crítico que compromete a continuidade e o planejamento de longo prazo das ações de saúde pública.

Um exemplo marcante é o caso de Luanda. Em 2022, a gestão municipal lançou uma campanha para ampliar a compreensão sobre a importância da pergunta “raça/cor” nas fichas de atendimento do SUS, com formações para os profissionais. Contudo, uma mudança de gestão descontinuou o programa, e o tema foi esquecido, com novos funcionários não compreendendo mais a relevância da pergunta. “Precisa ter alguém, um gestor estadual, por exemplo, ou o ministério, para fomentar essa discussão, não deixar que ela fique inviabilizada novamente. A gente não pode deixar de falar da saúde da população negra, mas é um tema que acaba ficando esquecido”, alerta Geralda.

A Percepção dos Profissionais e o Futuro do SUS

A pesquisa também revelou a percepção de alguns profissionais de saúde. Em Benin, uma profissional de UBS afirmou: “Eu diria que é só uma formalidade para o cadastro, assim. Mas eu não sei se tem algo associado ao tratamento em si que vai diferenciar. Acredito que não, né? Pelo menos para a gente, aqui, o tratamento é igual da mesma forma”. Essa visão, de que perguntar sobre raça/cor é desnecessário ou até discriminatório, pois “todos são iguais”, transforma o sistema de saúde em um espaço onde discutir desigualdades raciais é visto como problemático, inviabilizando a construção de um cuidado verdadeiramente equitativo.

Ao finalizar sua pesquisa, Geralda Aparecida expressa a esperança de que a dissertação vá além de apontar caminhos. Ela almeja que o trabalho “desperte em pesquisadores, gestores e trabalhadores do SUS a vontade de continuar lutando por um SUS com mais integralidade e equidade para que de fato se torne aquilo que um dia o movimento da reforma sanitária e o movimento negro sonharam para um sistema de saúde universal”. A pesquisa é um chamado urgente para que o SUS cumpra seu ideal de universalidade, equidade e integralidade para todos, sem exceções, combatendo o racismo que ainda permeia suas estruturas.

Fonte: jornal.usp.br

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