Pagode na USP? Entenda como a Rádio Universitária e Moisés da Rocha moldaram o pagode romântico e revelaram o Fundo de Quintal

A Universidade de São Paulo (USP), conhecida por sua excelência acadêmica e rigor científico, possui uma faceta pouco explorada em sua história: a de berço e difusora de um dos gêneros musicais mais populares do Brasil, o pagode. Mais especificamente, o pagode romântico, que dominou as rádios e palcos a partir da década de 1990, tem suas raízes firmemente plantadas no trabalho de um entusiasta da cultura popular e um programa da Rádio USP.

A voz do samba na rádio universitária

Em 1978, Moisés da Rocha chegou à Rádio USP para assumir a programação da emissora. Pouco depois, sua voz grave e marcante o levou à frente do microfone de “O Samba Pede Passagem”, um programa dedicado exclusivamente ao samba. Naquele período, o gênero musical enfrentava forte preconceito, sendo raramente tocado nas FMs comerciais e com pouco espaço na televisão. A Rádio USP, então, tornou-se a primeira emissora FM do Brasil a ter um programa integralmente voltado para o samba, transformando-se em um farol de valorização e difusão para o ritmo.

A década de 1980 trouxe expansão ao programa. Sob a gestão do professor Luiz Fernando Santoro, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), o tempo de duração foi ampliado e experiências inovadoras foram implementadas, como apresentações ao vivo com plateia no Anfiteatro Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária. Esses encontros uniam músicos, compositores e ouvintes, criando uma ponte entre a academia e a cultura popular. Apesar das críticas e da resistência interna na USP, que questionavam a pertinência do samba em uma rádio universitária, “O Samba Pede Passagem” resistiu, consolidou-se e recebeu importantes premiações, incluindo distinções da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

O Fundo de Quintal pede passagem

O impacto do programa transcendeu os muros da universidade. Foi por meio de Moisés da Rocha que muitos ouvintes tiveram o primeiro contato com as gravações de um grupo carioca que revolucionaria o gênero: o Fundo de Quintal. A história da descoberta é curiosa: em uma noite no bar Itapuã, no Bexiga, um amigo, Nelson Mecha Branca, comentou sobre um LP recém-lançado pela gravadora RGE. O álbum, vindo da filial carioca, apresentava uma sonoridade “diferente” do samba tradicional, com instrumentos incomuns. Intrigado, Moisés pediu para ouvir.

Tratava-se de “Samba é no Fundo de Quintal – Vol. 1”, de 1980. Sem sequer ouvir o disco antes, o radialista o levou diretamente para o estúdio da Rádio USP. Ao colocar a primeira faixa no ar, a magia aconteceu. Uma música levou à outra, e o álbum foi imediatamente incorporado à programação regular. A mediação de Moisés da Rocha em “O Samba Pede Passagem” foi crucial para que o Fundo de Quintal ganhasse visibilidade não só entre os ouvintes da rádio, mas em todo o país, disseminando uma nova estética musical que logo transformaria o samba.

A escola dos grandes nomes do pagode

Nascido no Cacique de Ramos, o Fundo de Quintal inovou com instrumentos como o tantã, o repique de mão e o banjo (adaptado ao cavaquinho), criando o que Nei Lopes define como “um novo jeito de fazer samba”. Essa sonoridade ecoou profundamente entre jovens das periferias paulistanas, muitos dos quais não se identificavam com o samba tradicional, visto como música de gerações mais antigas. Ao ouvir o Fundo de Quintal na Rádio USP, esses adolescentes, em sua maioria negros e periféricos, encontraram uma nova paixão.

O programa de Moisés da Rocha tornou-se uma verdadeira “biblioteca” e “escola” para essa juventude. Ali, eles ouviram os grandes mestres, aprenderam repertórios e descobriram a nova forma de tocar samba. Anos depois, já na década seguinte, esses “meninos” formariam grupos que se tornariam os grandes expoentes do pagode romântico, como Exaltasamba, Katinguelê, Soweto e Negritude Jr. De forma inesperada, uma rádio universitária pública desempenhou um papel decisivo nesse processo, mantendo viva e em circulação uma tradição musical profundamente ligada à história da população negra no Brasil.

O legado cultural da universidade pública

Essa história reforça a importância das universidades públicas para além da produção de conhecimento acadêmico. Elas atuam como guardiãs, valorizadoras e difusoras de expressões culturais que, muitas vezes, não encontram espaço nas lógicas de mercado. Em cenários marcados por disputas simbólicas e pressões comerciais, instituições públicas como a USP desempenham um papel decisivo ao garantir visibilidade a manifestações artísticas populares e, por vezes, marginalizadas, provando que a cultura popular tem seu lugar de direito no ambiente acadêmico e na sociedade.

Fonte: jornal.usp.br

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