Uma nova abordagem científica surge como um raio de esperança para pacientes com leucemia mieloide aguda (LMA), um câncer agressivo das células sanguíneas, que desenvolvem resistência aos tratamentos quimioterápicos. Pesquisadores brasileiros, em conjunto com grupos da Holanda e dos Estados Unidos, descobriram que é possível “ressensibilizar” as células tumorais, permitindo que medicamentos como o venetoclax, um dos mais modernos para LMA, voltem a ser eficazes após a perda de resposta inicial.
O venetoclax tem revolucionado o tratamento da LMA, mas muitos pacientes, após cerca de dois anos, param de responder à medicação. Essa resistência, conforme apontam estudos pré-clínicos, é resultado de uma reprogramação metabólica das células cancerosas. A boa notícia é que esse processo pode ser revertido, abrindo caminho para a retomada do tratamento e melhorando significativamente o prognóstico desses pacientes.
A Chave para Reverter a Resistência: Inibição Metabólica
A pesquisa aponta que a resistência das células tumorais pode ser superada com o uso de fármacos inibidores da enzima nicotinamida fosforibosiltransferase (Nampt). Essa enzima desempenha um papel crucial na produção de energia das células cancerosas, sendo essencial para sua sobrevivência. Ao inibi-la, é possível desestabilizar o metabolismo tumoral e torná-lo vulnerável novamente à quimioterapia.
Entre os fármacos estudados, destacam-se a metformina, amplamente conhecida e utilizada no tratamento de diabetes tipo 2, e o KPT-9274, um inibidor específico de Nampt. Ambos demonstraram a capacidade de reverter a resistência em modelos de laboratório, oferecendo uma nova perspectiva terapêutica.
Evidências Sólidas de Pesquisas Internacionais
As conclusões sobre a reversibilidade da resistência foram publicadas em um editorial científico na revista *Translational Cancer Research*, destacando a convergência de resultados obtidos por diferentes grupos de pesquisa. O professor João Agostinho Machado Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e um dos responsáveis pela publicação, enfatiza que essa colaboração independente reforça a validade do novo paradigma científico.
No Brasil, estudos da USP mostraram que metformina e KPT-9274 reverteram a resistência adquirida de células tumorais ao venetoclax. Simultaneamente, pesquisadores de Groningen, na Holanda, trabalharam com linhagens celulares com resistência intrínseca e observaram que a metformina ressensibilizou as células, com um efeito ainda mais potente quando combinada ao KPT-9274. Já o grupo do Texas, nos EUA, aplicou o inibidor de Nampt em células resistentes à quimioterapia padrão com citarabina, obtendo resultados semelhantes de ressensibilização.
Perspectivas Clínicas: Metformina e o Futuro dos Fármacos
A próxima etapa crucial é transformar esses promissores resultados pré-clínicos em estratégias clinicamente viáveis. O professor Machado Neto revela que um grupo de pesquisa no Brasil já iniciou um estudo clínico com metformina em pacientes de LMA que desenvolveram resistência à quimioterapia. “A metformina pode ter aplicação imediata, porque ela já é aprovada, bastante conhecida e usada há mais de 50 anos na clínica”, afirma.
Embora a metformina ofereça uma solução mais rápida devido ao seu perfil de segurança já estabelecido, os novos fármacos inibidores de Nampt, como o KPT-9274, são vistos com grande potencial para serem ainda mais eficientes no futuro. Essa nova linha de pesquisa representa um avanço significativo na luta contra a leucemia mieloide aguda resistente, abrindo portas para tratamentos mais eficazes e personalizados.
Fonte: jornal.usp.br
