Museu do Ipiranga Reinterpreta Modos de Vida Rurais com Encontro Focado na Coleção Sertaneja e Vozes do Vale do Paraíba

O Museu do Ipiranga, em São Paulo, promoveu no dia 30 de maio um encontro significativo intitulado “Encontros com o acervo: a Coleção Sertaneja e os agentes do Vale do Paraíba”. O evento marcou um passo importante na reinterpretação dos modos de vida rurais do Brasil, reunindo pesquisadores, artistas, artesãos e agentes culturais em um processo coletivo de escuta, troca e produção de conhecimento.

A iniciativa propõe uma nova leitura da Coleeração Sertaneja, um dos conjuntos mais importantes do acervo do museu, a partir de múltiplas vozes, incluindo aquelas diretamente ligadas à produção dos objetos. Esse movimento busca reconhecer a coleção não apenas como um registro do passado, mas como um ponto de partida para novas interpretações no presente, refletindo o papel do Museu como um espaço público de construção compartilhada de conhecimento.

Um Acervo em Diálogo

Formada majoritariamente entre as décadas de 1920 e 1950, a Coleção Sertaneja é composta por cerca de 600 bens culturais que documentam modos de vida rurais de diversas regiões do Brasil, com destaque para o interior de São Paulo e áreas do Norte e Nordeste. O conjunto abrange desde itens de uso cotidiano, como roupas e utensílios de cozinha, até objetos de uso religioso, como ex-votos, instrumentos musicais de Moçambiques e Congadas, e artesanato, incluindo pequenas esculturas de madeira e cestaria.

Historicamente, esses objetos foram coletados em um período em que intelectuais e folcloristas buscavam registrar manifestações culturais consideradas ameaçadas pela urbanização e industrialização. No entanto, grande parte das narrativas associadas a esses bens foi construída sem a participação direta das populações que os produziram, refletindo visões de mundo da época e tentativas de definir uma identidade nacional de forma externa. O encontro no Ipiranga busca corrigir essa lacuna, promovendo um diálogo inclusivo.

Vozes do Vale do Paraíba Trazem Novas Perspectivas

O evento contou com a participação de diversos convidados cujas trajetórias estão profundamente ligadas à cultura popular e ao patrimônio do Vale do Paraíba, região que possui forte representatividade na coleção. Entre eles, ceramistas como Vitor Emanuel Alexandre Pereira, museólogos como Thales Gayean e Andreas Oliveira Guimarães, e figuras importantes da cultura popular como Josi e Raissa Sampaio, da Casa do Figureiro de Taubaté, e Mestre Paizinho, da Companhia de Moçambique Unidos a São Benedito.

Também estiveram presentes representantes de festas tradicionais, como João Gualberto Salinas Neto, da Casa da Festa do Divino de São Luiz do Paraitinga, e artesãos como Ari Ribeiro, luthier de São Luiz do Paraitinga, e Rosa Maria dos Santos, da Casa do Artesão de Cunha. Suas contribuições visam a ampliar e qualificar o entendimento sobre a coleção, incorporando saberes que historicamente ficaram à margem dos processos institucionais.

Museu: Espaço de Construção Compartilhada

Ao promover esse diálogo, o Museu do Ipiranga reafirma seu papel como agente ativo na revisão crítica das narrativas sobre a história e a cultura brasileiras. A iniciativa também aponta para desafios contemporâneos enfrentados por instituições museológicas, como a necessidade de lidar com lacunas em seus acervos e de refletir sobre a ausência ou sub-representação de determinados grupos sociais.

Ações como esta buscam abrir caminhos para novas formas de relação entre museus e sociedade, tornando as instituições mais inclusivas e representativas. O Museu do Ipiranga, uma das sedes do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, é conhecido por sua modernidade e acessibilidade, abrigando 49 salas expositivas e 11 exposições de longa duração que apresentam um panorama da história e da cultura material brasileira.

Programação do Evento

A programação do “Encontros com o acervo” incluiu um credenciamento às 13 horas, seguido por uma roda de conversa com os convidados das 14h às 16h. Esta mesa-redonda permitiu a interação direta com o público, mobilizando saberes, ofícios, celebrações e sentidos em torno dos objetos da Coleção Sertaneja. Para finalizar, das 16h30 às 18h, ocorreu a apresentação “Patrimônio vivo”, que trouxe a “vida” dos bens culturais em movimento, com grupos e manifestações artísticas.

O evento, que contou com apoio logístico das secretarias de cultura de Taubaté, São Luiz do Paraitinga e Cunha, foi acessível em Libras e de classificação livre, reforçando o compromisso do Museu do Ipiranga com a inclusão e a democratização do acesso à cultura.

Fonte: jornal.usp.br

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