Mulheres que vivem em assentamentos rurais no Brasil estão criando suas próprias redes de apoio e resolução de conflitos, diante da dificuldade de acesso à Justiça formal. Uma pesquisa realizada na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP lança luz sobre como essas mulheres enfrentam barreiras significativas — sejam institucionais, territoriais ou de gênero — e encontram na solidariedade comunitária a principal forma de garantir seus direitos e superar desafios.
Barreiras e a busca por autonomia
O estudo da USP destaca que a distância geográfica, a complexidade dos trâmites legais e, muitas vezes, a falta de sensibilidade das instituições para as realidades do campo, afastam a Justiça das mulheres assentadas. Diante desse cenário, elas desenvolvem mecanismos internos de apoio. A organização coletiva não é apenas uma forma de resistência, mas uma estratégia vital para a resolução de conflitos e a reivindicação de direitos que, de outra forma, seriam negligenciados.
A força da organização coletiva
Redes de solidariedade, participação ativa na comunidade e a organização política emergem como ferramentas poderosas. A pesquisa ressalta que essas mulheres, ao se unirem, fortalecem-se para enfrentar os desafios diários. Mesmo com a existência de iniciativas como o Setor de Gênero do MST, criado para combater desigualdades e ampliar a participação feminina, a violência de gênero e outras questões persistem, evidenciando a profundidade do problema.
Violência persistente e estruturas sociais
A pesquisadora Gabriella, responsável pelo estudo, aponta que a persistência da violência reflete estruturas históricas da sociedade brasileira. “Essa é uma realidade que eu esperava encontrar; as relações são estruturais e a sociedade é moldada dessa forma”, afirma. Ela explica que, independentemente dos esforços de organizações como o MST para promover relações mais equitativas, a sociedade ainda está profundamente marcada por hierarquias e relações patriarcais, que se manifestam também nos assentamentos.
Aproximando a universidade dos territórios
O trabalho da USP não apenas documenta essa realidade, mas também busca aproximar o conhecimento acadêmico dos territórios rurais, contribuindo para a formulação de estratégias mais eficazes de apoio e empoderamento para essas mulheres. A pesquisa reforça a urgência de olhar para as soluções construídas pelas próprias comunidades como caminho para uma justiça mais acessível e inclusiva.
Fonte: jornal.usp.br
