O ciclo vicioso da “solução”
Em teoria, a cidade de Panipat, na Índia, parecia encontrar uma saída para o desperdício da moda rápida: a reciclagem. No entanto, a realidade é um ciclo vicioso onde cada etapa da transformação de roupas usadas em novas matérias-primas gera um custo ambiental e humano altíssimo.
Trabalhadores respiram poeira e produtos químicos
Nas unidades de reciclagem, finas camadas de algodão se agarram aos rostos e invadem as vias respiratórias dos trabalhadores. Rajesh, um operário têxtil veterano, relata tosses constantes e falta de ar. Ele, assim como milhares de outros migrantes, depende dessa renda modesta, mas estável, para sobreviver. As condições de trabalho são precárias: a maioria inala fibras e produtos químicos sem qualquer equipamento de proteção, como máscaras ou luvas. Reeta Devi, que trabalha para sustentar o marido acidentado, descreve a dificuldade de respirar com a poeira levantada. Sanagar Alam, ex-trabalhador de tingimento, mostra furúnculos no pescoço causados pelo contato com produtos químicos e relata que as despesas médicas são arcadas pelos próprios trabalhadores.
Poluição que afeta milhões
O problema se estende para além das fábricas. Resíduos de tingimento e branqueamento são frequentemente despejados em esgotos a céu aberto, contaminando os sistemas hídricos de Panipat e arredores. A água, antes um recurso essencial, tornou-se um risco, sendo ainda utilizada para lavar roupas, irrigar plantações e até para consumo em algumas comunidades. Uma pesquisa de 2022 revelou que quase 93% das famílias relataram problemas de saúde graves, com aumento de doenças crônicas, alergias, problemas de pele e câncer. Dr. Vikas Sharma, morador da vila de Shimla Gujran, lamenta: “Não há ninguém aqui que não seja afetado. Todos sofrem com essa água.”
Ações insuficientes e falta de responsabilização
Apesar de notificações governamentais para o fechamento de unidades de branqueamento ilegais e o lacre de algumas instalações, ex-funcionários e especialistas apontam a falta de ações efetivas. Dr. Shiv Singh Rawat, ex-funcionário do departamento de irrigação, critica a ausência de responsabilização “de todos os lados: do governo, da indústria e até mesmo do público”. Ele afirma que os sistemas de tratamento de efluentes não são usados consistentemente, e os resíduos tóxicos acabam por atingir o rio Yamuna, uma fonte vital de água para milhões de pessoas no norte da Índia.
O legado da moda rápida em Panipat
Em Panipat, o legado da moda rápida é visível no ar carregado de poeira, nas valas de esgoto a céu aberto e no risco diário enfrentado por trabalhadores e comunidades. Roupas descartadas chegam à cidade, são processadas e retornam às cadeias de suprimentos globais. Enquanto as peças ganham uma nova vida, são as pessoas de Panipat que pagam o preço, sofrendo as consequências ambientais e de saúde de um ciclo de consumo insustentável.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br
