Metrópole de São Paulo: Como a Valorização Imobiliária ‘Exporta’ Desigualdades para Parelheiros, segundo a USP

Parelheiros, distrito localizado a cerca de 50 quilômetros do centro da capital paulista, é um retrato das profundas contradições da expansão urbana. Em sua paisagem, convivem áreas de preservação ambiental, condomínios de alto padrão, grandes redes comerciais e ocupações irregulares. Embora esses contrastes sejam frequentemente atribuídos à simples falta de planejamento urbano, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) propõe uma nova e mais complexa interpretação: essas desigualdades são parte intrínseca da forma como a metrópole produz e reproduz suas próprias dinâmicas.

A Lógica da Reprodução Metropolitana

A tese “A reprodução da metrópole e a produção da periferia: o caso de Parelheiros”, de Djalma Luiz Costa, argumenta que a produção do espaço urbano não pode ser compreendida apenas por fatores locais. Segundo o pesquisador, é a própria dinâmica do espaço metropolitano, caracterizada pela intensa valorização imobiliária e financeira das áreas centrais, que impulsiona e condiciona a formação de novos espaços periféricos, como Parelheiros. Essa lógica central-periferia seria, portanto, um motor das desigualdades observadas no distrito.

Desafiando a Visão da ‘Falta de Planejamento’

Um dos pontos centrais da pesquisa é questionar a simplificação de que as desigualdades em Parelheiros resultam unicamente da ausência de planejamento urbano. Costa afirma que essa explicação pode obscurecer um processo mais sofisticado, no qual existe um planejamento seletivo. Nele, investimentos e infraestrutura são estrategicamente direcionados a certos territórios, enquanto outros permanecem em situação de precariedade. Essa dinâmica não só valoriza algumas áreas, mas também contribui ativamente para a reprodução das desigualdades socioespaciais.

Mercado Imobiliário e a Segregação da Moradia

O estudo detalha como o mercado formal de moradias em Parelheiros se torna acessível majoritariamente a famílias com renda estável. Em contrapartida, a população de menor renda – marcada pela informalidade, trabalho precário e baixos salários – encontra barreiras para acessar esse mercado. Como resultado, essas famílias são empurradas para loteamentos irregulares, ocupações e outras formas informais de acesso à habitação. À medida que certas áreas do distrito se valorizam, os preços de terrenos e imóveis sobem, restringindo ainda mais o acesso e aprofundando as desigualdades já existentes.

Contradições de uma Urbanização de Mercado

Para Djalma Luiz Costa, as ocupações não devem ser vistas apenas como um reflexo da pobreza ou da ilegalidade. Elas representam, sobretudo, as contradições inerentes a um modelo de urbanização onde o acesso à terra e à moradia é fundamentalmente mediado pela lógica do mercado. Compreender essas dinâmicas complexas é crucial para o desenvolvimento de políticas urbanas eficazes, capazes de enfrentar as desigualdades que são, em grande parte, produzidas pelo próprio processo de expansão das grandes metrópoles.

Fonte: jornal.usp.br

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