Em novembro de 2024, uma declaração da cantora, apresentadora e empresária Jordana Gleise de Jesus Menezes, a Jojo Todynho, no podcast Brasil Paralelo, reacendeu um debate complexo sobre a Língua Portuguesa, a política e a justiça. Ao ser questionada sobre propostas para apoiar políticos, Jojo revelou: “Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando o Lula se… veio… candidato a presidente”, referindo-se à campanha eleitoral de 2022.
A fala rapidamente ganhou as redes sociais e provocou uma resposta imediata do Partido dos Trabalhadores (PT), que alegou difamação e moveu uma queixa-crime contra a influenciadora. Um ano depois, a defesa de Jojo argumentou que a queixa era inepta, pois na oração “Me ofereceram um milhão e meio” não haveria sujeito determinado, sendo classificada como oração com sujeito indeterminado. O Ministério Público do Rio de Janeiro concordou, mas a questão levantou um ponto crucial: a gramática escolar tradicional realmente simplifica demais a compreensão do sujeito?
Onde o Sujeito se Esconde (e por quê)
A figura do sujeito indeterminado é familiar desde as aulas de gramática do ensino fundamental. Segundo a visão tradicional, ele é usado quando não se conhece a identidade do agente da ação ou quando não há intenção de explicitá-la. O exemplo clássico é o uso da terceira pessoa do plural sem sujeito expresso, como em “Me ofereceram”, o cerne da discussão jurídica de Jojo Todynho.
Contudo, autores como Ataliba Castilho apontam que a indeterminação do sujeito é uma propriedade semântica explorada intencionalmente. Nenhuma forma verbal é intrinsecamente indeterminada; é o propósito do enunciador que define a escolha de não revelar o responsável pelos fatos. Maria Helena Moura Neves expande essa visão, mostrando que a indeterminação pode ser alcançada de outras formas, como no uso de “você” ou “a gente” em frases como “Você rala a vida toda pra passar fome quando aposenta”. Mais recentemente, “a pessoa” também entrou nesse rol.
Esses exemplos demonstram que a língua é uma ferramenta moldada pelos falantes para seus propósitos comunicativos. Em “Furtaram meu celular”, a identidade do ladrão é desconhecida. Ao contar uma fofoca, dizemos “Você não sabe o que me disseram!” para proteger a fonte. Em ambos os casos, a omissão é estratégica, mas a pergunta “Quem?” permanece, muitas vezes respondida pelo contexto ou por uma investigação externa, não pela estrutura gramatical isolada.
As Pistas que o Contexto Oferece
No caso de Jojo Todynho, a aparente indeterminação do sujeito é desfeita ao analisarmos o arranjo completo de sua declaração. Antes de revelar a proposta, Jojo demonstrou receio, consultando alguém: “Posso falar ou não falo?”. Essa cautela já sinalizava que a informação era delicada. A omissão do sujeito na oração principal, portanto, foi uma escolha precisa, servindo à intenção de não nomear diretamente o agente.
No entanto, a fala completa de Jojo pode ser dividida em três orações: “Me ofereceram um milhão e meio” (principal); “para fazer campanha” (subordinada); e “quando o Lula veio candidato a presidente” (subordinada adverbial). Se a oração principal for vista isoladamente, realmente não há como saber quem fez a oferta. Contudo, a segunda subordinada serve como uma poderosa pista. Embora a defesa possa argumentar que ela apenas marca o tempo da oferta, a informação sobre a identidade do candidato Lula age implicitamente na construção do sentido.
Para ilustrar, basta trocar o nome do candidato: “Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando o Jair Bolsonaro veio candidato a presidente”. A mensagem muda drasticamente, comprovando que a oração adverbial não é um mero acessório, mas um elemento que indiretamente revela o sujeito de “ofereceram”, tornando-o facilmente resgatável pelo contexto linguístico.
A Rede de Sentidos e a Confirmação
Para além da análise sintática, é fundamental compreender que o discurso é uma rede de enunciados multimodais. O significado de uma declaração não se restringe às palavras ditas, mas engloba todo o contexto da comunicação. No caso de Jojo Todynho, essa rede se tornou ainda mais evidente.
Pouco tempo depois de sua declaração inicial, Jojo confirmou a interpretação ao responder diretamente ao entrevistador: “Pra apoiar o Lula na época da… das eleições?”. A resposta da cantora foi enfática: “É isso aí”. Essa confirmação posterior solidificou a percepção de que a oferta de R$ 1,5 milhão estava ligada à campanha do então candidato Lula.
A própria mídia reforçou essa interpretação. O vídeo da entrevista no YouTube do Brasil Paralelo foi nomeado “Jojo Todynho acusa que recebeu proposta milionária para apoiar campanha do PT”. A miniatura do vídeo, por sua vez, exibia a frase “Me ofereceram um milhão e meio pra fazer campanha para o Lula”. Se o PT, a imprensa e o público em geral entenderam que a oferta estava ligada à campanha de Lula, questiona-se a plausibilidade de que todos estivessem equivocados na interpretação do “sujeito indeterminado”.
Gramática como Escolha e Ferramenta
A gramática não deve ser encarada como um conjunto de regras rígidas e descontextualizadas, mas sim como um arsenal de escolhas que auxiliam na construção de sentidos. A omissão do sujeito, como qualquer outra decisão linguística, não é aleatória; ela serve a um propósito e reflete um planejamento do enunciador. No caso de Jojo Todynho, a cantora parecia ciente dos potenciais efeitos legais de sua declaração e da maneira como a escolha de nomear um candidato mudaria a interpretação da mensagem.
Professores de Filologia e Língua Portuguesa da FFLCH-USP, como Beatriz Daruj Gil, e bacharéis em Letras, como Júlia Monteiro da Silva, Shohei Ota e Vitor Martins Englezias, ressaltam que ignorar a gramática como escolha empobrece a proficiência linguística. A mera classificação gramatical, embora útil em um nível básico, pouco explica sobre os complexos processos de comunicação e as intenções por trás das palavras. O deslize de informações nos arranjos sintáticos é, na verdade, uma das muitas formas que escolhemos para nos expressar e para construir a realidade em que vivemos.
Fonte: jornal.usp.br
