Joelho Varo, LCA e Artrose: O Que o Alinhamento das Pernas de Craques como Garrincha e Neymar Revela Sobre Lesões no Futebol

Joelho Varo, LCA e Artrose: O Que o Alinhamento das Pernas de Craques como Garrincha e Neymar Revela Sobre Lesões no Futebol

A condição, que ficou famosa em atletas como Garrincha, nem sempre é doença, mas pode alterar a distribuição de carga no joelho e influenciar o risco de lesões como a do Ligamento Cruzado Anterior e o desenvolvimento de artrose.

Durante grandes competições, os atletas se tornam o centro das atenções, e com isso, as discussões sobre lesões, recuperações e tratamentos ganham destaque. Imagens de jogadores em campo ou durante a reabilitação frequentemente circulam nas redes sociais, gerando curiosidade sobre a condição física e o alinhamento das pernas de alguns deles. Em muitos casos, as pernas podem parecer “tortas” ou em formato de arco, uma característica conhecida como joelho varo.

O doutor Rodrigo Salim, especialista em Ortopedia com ênfase em joelho pela FMRP da USP, explica as diferenças: “O joelho varo é quando as pernas formam um arco para fora, fazendo com que os joelhos fiquem mais afastados. Já o joelho neutro é mais alinhado, enquanto o joelho valgo é o contrário: os joelhos se aproximam para dentro, formando o chamado ‘joelho em X’. Existe ainda uma condição curiosa, conhecida na ortopedia como deformidade em ventania, em que um joelho está em varo e o outro em valgo”, um exemplo clássico dessa última sendo o ex-jogador Garrincha.

Joelho Varo: Mais que uma Curiosidade Visual

É crucial ressaltar que não se pode fazer um diagnóstico apenas pela observação. A posição da câmera, a rotação do quadril, a musculatura, a chuteira e até a forma como o atleta se apoia podem influenciar a percepção de um joelho varo. O diagnóstico correto, segundo o Dr. Salim, depende de exame físico e, muitas vezes, de uma radiografia panorâmica de todo o membro inferior.

Antes de associar o joelho varo a problemas, especialistas enfatizam que essa característica nem sempre representa uma doença. Em muitos casos, especialmente quando aparece de forma simétrica nos dois lados, sem dor e sem limitação funcional, o alinhamento pode ser apenas uma variação anatômica individual. “É importante dizer que nem todo joelho em varo é doença. Um varo leve dos dois lados, simétrico, sem dor, sem limitação, pode ser apenas uma variação normal da anatomia. Na literatura médica existe até um conceito de varo constitucional”, explica Salim.

Quando o Alinhamento se Torna Preocupação?

A preocupação surge quando o desalinhamento é mais acentuado, quando o paciente sente dores ou possui um histórico de traumas, lesões e desgaste articular. “Passa a ser mais preocupante quando a deformidade em varo é mais acentuada, quando aparece mais de um lado, quando piora com o tempo, quando surge depois de uma fratura, depois de uma lesão ligamentar, depois de uma cirurgia, quando vem acompanhada por dor, quando o paciente vem perdendo performance, ou o atleta vem perdendo função e acompanhado de desgaste dessa articulação”, afirma o especialista.

Além da questão estética, a aparência arqueada das pernas levanta dúvidas sobre possíveis consequências para a articulação. Embora o joelho varo não seja, por si só, um diagnóstico de doença, ele pode alterar a forma como a carga do corpo é distribuída dentro da articulação. Em alguns casos, essa alteração pode favorecer a sobrecarga de determinadas regiões. “O que acontece é uma questão mecânica. No joelho em varo, a carga do corpo tende a passar mais pela parte interna da articulação, o chamado compartimento medial. Com o passar dos anos, essa sobrecarga pode aumentar o sofrimento da cartilagem e favorecer lesões no menisco medial, principalmente em pacientes que já apresentam artrose”, detalha Salim, reforçando que ter o joelho em varo não significa que a pessoa obrigatoriamente terá artrose ou uma lesão.

LCA e o Alinhamento das Pernas: Uma Relação Complexa

A relação entre o alinhamento dos joelhos e lesões também é frequentemente questionada em atletas de alto rendimento. Imagens de jogadores como Neymar Jr. geraram discussões sobre uma possível conexão entre o formato do joelho e lesões sofridas. No entanto, o Dr. Salim ressalta que, quando o assunto é a lesão do ligamento cruzado anterior (LCA), é preciso cautela. O rompimento desse ligamento não acontece simplesmente pelo fato de o atleta apresentar joelho varo ou valgo. “Sobre a lesão do ligamento cruzado anterior, o LCA, vale explicar com cuidado. A lesão geralmente envolve movimentos de desaceleração, rotação, mudança brusca de direção ou aterrissagem. No LCA, um fator bastante estudado é o valgo dinâmico, que é quando o joelho entra para dentro durante o movimento”, explica.

A lesão do LCA é uma das mais conhecidas no esporte, mas sua reconstrução cirúrgica não é indicada automaticamente para todos os pacientes. A decisão leva em conta fatores como idade funcional, nível de atividade física, tipo de esporte, sintomas de instabilidade e lesões associadas. Segundo Geraldo Gonçalves, especialista em Ortopedia pelo Hospital das Clínicas da FMRP, “A ruptura do ligamento cruzado anterior não significa obrigatoriamente que o paciente precisará de cirurgia. O tratamento conservador pode ser suficiente em muitos casos, principalmente em pessoas com menor demanda física e que não realizam atividades com mudanças de direção e movimentos de pivô. Mas é importante destacar que o tratamento conservador não significa simplesmente não operar. Ele envolve uma reabilitação funcional, geralmente com fisioterapia, para recuperar força muscular, equilíbrio, propriocepção e controle dos movimentos”.

A Conexão Duradoura: LCA e o Risco de Artrose

Uma revisão sistemática com metanálise publicada no Journal of Sport Rehabilitation demonstrou que a ruptura do LCA está associada a um aumento do risco de desenvolvimento de artrose no joelho, mesmo em pacientes que passam pela reconstrução cirúrgica do ligamento. A metanálise apontou que pessoas que sofreram essa lesão apresentam aproximadamente sete vezes mais chance de desenvolver artrose ao longo dos anos, com cerca de 36% dos pacientes submetidos à reconstrução do LCA apresentando sinais radiográficos de desgaste articular aproximadamente dez anos após o procedimento.

Mas por que a cirurgia, mesmo reconstruindo o ligamento, não impede completamente a degeneração? Gonçalves explica que a resposta está em uma combinação de fatores: “A ruptura do LCA não representa apenas uma lesão do ligamento, mas um trauma que envolve toda a articulação do joelho. O impacto causado no momento da lesão pode gerar danos à cartilagem e iniciar um processo inflamatório que favorece a degeneração ao longo dos anos. Mesmo após a reconstrução do ligamento, o joelho não retorna completamente às condições biológicas e mecânicas anteriores à lesão, podendo permanecer alterações na distribuição das cargas e na mecânica da articulação. Quando há lesões associadas de menisco e cartilagem, o processo de desgaste pode ser ainda mais intenso. A artrose após uma lesão de LCA é, portanto, resultado de uma combinação de fatores”, conclui o especialista.

Fonte: jornal.usp.br

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