As recentes eleições presidenciais na Colômbia e no Peru, cujos resultados foram divulgados em 15 de julho, trazem um sinal de alerta para os direitos humanos e a democracia em toda a América do Sul. A análise é do professor Pedro Dallari, em sua coluna “Globalização e Cidadania”, veiculada na Rádio USP, que destaca a vitória de forças de extrema-direita em ambos os países.
No Peru, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori e representante da direita e extrema-direita, superou por uma margem apertada o candidato de esquerda Roberto Sánchez, que contava com o apoio do ex-presidente Pedro Castillo. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, assumidamente de extrema-direita, derrotou o candidato governista de esquerda, Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro.
Uma Nova Onda Conservadora na América do Sul
Para Dallari, esses resultados não são meramente derrotas de forças progressistas, mas sim a ascensão de um “novo tipo de conservadorismo de extrema-direita”, distinto do conservadorismo liberal tradicional que historicamente se alternou no poder na região. Essa tendência, segundo o professor, já se manifesta em outras eleições sul-americanas.
O cenário é reforçado por vitórias recentes como as de Javier Milei na Argentina (2023), José Antonio Kast no Chile (em 2025, conforme análise do professor) e Daniel Noboa no Equador (neste ano). Apesar das particularidades de cada país, o elemento comum é um “discurso fortemente autoritário, contrário à promoção dos direitos humanos e, mesmo, à própria democracia”. Tais candidaturas, aponta Dallari, rejeitam até mesmo as posições conservadoras liberais que, historicamente, defendiam a democracia e os direitos humanos.
Vulnerabilidade Social como Motor do Voto Radical
O professor avalia que a motivação para essas vitórias reside menos em opções ideológicas – visto que pesquisas indicam que a maioria da população não é de extrema-direita – e mais no desejo por “soluções mais radicais, extremadas, para problemas decorrentes de um quadro de grande vulnerabilidade social”. A segurança pública, por exemplo, é citada como um dos maiores fatores de preocupação em toda a América Latina.
Independentemente da motivação, o fato preocupante é o risco de uma “guinada estrutural na região para regimes políticos de viés antidemocrático e não meramente mudanças conjunturais”. Essa transformação já é observada em outros países latino-americanos, com o presidente Nayib Bukele, de El Salvador, reeleito em 2024, sendo um exemplo eloquente dessa tendência.
O Papel dos EUA e a Eleição Brasileira
Esse cenário é, segundo Dallari, “reforçado pelo apoio do governo norte-americano de Donald Trump a governos e a candidaturas em governos de direita e de extrema-direita”, conforme análise do professor Alberto do Amaral, da Faculdade de Direito da USP. Um aspecto crucial, para Dallari, será observar como essa tendência se projetará na eleição presidencial brasileira no segundo semestre deste ano.
Para os direitos humanos, o professor conclui que o quadro é de “bastante inquietação”, indicando um período de incertezas e desafios para a defesa das garantias fundamentais na região.
Fonte: jornal.usp.br
