A França, berço de ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, enfrenta um momento de profunda tensão social e política, impulsionado pela ascensão da extrema direita e seu impacto nas políticas migratórias. Ideias que, outrora, pareciam marginais, ganham força através de figuras como Marine Le Pen e sua sobrinha, Marion Maréchal, herdeiras políticas de Jean-Marie Le Pen. Em um cenário de endurecimento, a saúde mental dos migrantes emerge como uma das vítimas mais silenciosas e preocupantes.
Marion Maréchal, em discursos que evocam o nacionalismo e a defesa da ‘bandeira francesa’, tem se empenhado na revisão e no rigor das políticas migratórias. Nesse contexto, um aspecto crucial, mas menos debatido, é a tentativa de diminuir as políticas de apoio à saúde mental dos imigrantes. Esta movimentação parte da constatação de que a crise nas políticas de asilo tem levado a sociedade francesa a adotar medidas que enfraquecem a situação dos migrantes.
A mídia e parte do discurso político alimentam uma retórica de ‘crise’ migratória, questionando a capacidade de acolhimento de estrangeiros no país. Acolher, no entanto, transcende a mera oferta de infraestrutura; significa ouvir, dar espaço à voz do outro e acompanhar essa presença de forma subjetiva no contexto social.
Em narrativas políticas, sociais e econômicas amplamente difundidas, o migrante é frequentemente associado a uma ‘subcultura’, um ‘defeito’, uma ‘anormalidade’ ou até mesmo a uma ‘patologia social’ (invasão) ou ‘patologia somática’ (ferida). Essa associação leva à ideia de uma precariedade social articulada a uma precariedade psíquica, conceito que tem sido estendido às migrações mais recentemente.
A literatura especializada é clara: a capacidade do ambiente social de acolher o sujeito psicotraumatizado é uma ferramenta indispensável para sua reconstrução. Ajuda a recuperar recursos internos e a subjetivar a experiência traumática. A migração, muitas vezes traumática, ataca o indivíduo no mais profundo de seu ‘sentimento de ser’ e de ‘existência’, afetando suas origens, cultura e até recursos sensoriais.
A Retórica da ‘Crise’ e a Dehumanização
Além da estigmatização, existe a invisibilidade. Muitos migrantes permanecem à margem, sem reconhecimento de sua trajetória, dores ou contribuições. A dicotomia que se instala publicamente os representa como heroicos ou monstruosos, ignorando as figuras intermediárias e impedindo uma narrativa mais complexa e humanizada sobre a migração.
Um exemplo marcante foi o caso de um migrante que agrediu fisicamente uma adolescente, resultando em sua morte. O episódio foi instrumentalizado unicamente sob a perspectiva da imigração, interditando um debate mais amplo sobre a precariedade do sistema de saúde mental e do atendimento psicossocial para toda a população. Ao reduzir a discussão à dicotomia ‘a favor ou contra a presença estrangeira’, o migrante é destituído de sua complexidade e passa a existir exclusivamente como ‘estrangeiro perigoso’, sujeito à estigmatização ou expulsão.
Em contraste, recordamos o ano de 2018, quando um migrante escalou a fachada de um prédio para salvar uma criança em perigo. Aclamado por sua coragem, teve sua situação administrativa regularizada após o episódio.
Entre o Herói e o Monstro: A Visibilidade Seletiva
Observamos nitidamente a coexistência dessas duas representações antagônicas do migrante: a do monstro e a do herói. Essas figuras, envoltas em uma aura de onipotência, projetam-se no palco social e evidenciam a complexa questão do lugar do sujeito nesse contexto. São duas faces do exílio e do exilado, que buscam um espaço de pertencimento e demandam escuta, observação e cuidado por parte de uma ‘clínica psicossocial’ que se encontra, atualmente, em processo de desmonte. Este é, sem dúvida, um dos aspectos mais preocupantes e silenciados nas estratégias de contenção migratória.
O Desmonte do Cuidado: Quando o Estado Perde sua Função Parental
A política de contenção também pode ser lida sob a ótica da função parental do Estado no cuidado dos indivíduos, conforme A. Ciccone. Quando um prefeito declara não poder mais alojar famílias e crianças menores de três anos por falta de verba estatal, o contrato social é posto em perigo. O Estado perde sua função ‘parental’, e o indivíduo é associado a uma mercadoria, a um objeto. Há uma anulação do sujeito, que não é mais compreendido como um ser subjetivo com necessidades específicas e histórico psicossocio-traumático. A violência, para o autor, produz a dessubjetivação do sujeito.
Fassin analisou os ‘lieux d’écoute’ franceses (locais de acolhimento de sofrimento psíquico) como uma forma de entender a desigualdade social pela chave do sofrimento, em uma estratégia que minimizaria os embates institucionais: uma norma reparadora humanizada, centrada na escuta e no indivíduo, que, paradoxalmente, desresponsabiliza o Estado.
Consequências Silenciadas: Sofrimento Ignorado e Escassez de Mão de Obra
O que tem crescido na França, e não apenas lá, é o silenciamento do sofrimento psíquico individual, chegando à sua banalização. O indivíduo torna-se 100% responsável por seu infortúnio, e a única saída seria sua própria força de vontade. Peça-chave para a elaboração de uma política de compaixão, o sofrimento se inscreve na economia moral contemporânea a partir de sentimentos morais que deram aos sujeitos – em especial, aos sujeitos doentes – um papel.
A questão que se impõe é sobre os desdobramentos sociais e econômicos deste momento, em que parece ocorrer o desmonte dos ‘lieux d’écoute’ concomitantemente com a desvalorização moral desses sujeitos na política francesa. Estará em curso, nesta virada política, a produção de um novo sujeito, não mais constituído pelo sofrimento, mas pelo apagamento e descarte? Contraditoriamente, notícias recentes indicam que o endurecimento das políticas de regularização para trabalhadores imigrantes na França, no último ano, tem gerado escassez de mão de obra em setores essenciais como bares, restaurantes e trabalhos de cuidado.
Se a ‘parentalidade soignante sociale’ (parentalidade do cuidado social) não responde às necessidades básicas do indivíduo, são criadas organizações e sistemas onde os rostos ficam borrados, passíveis de desaparecer, desconhecidos e irreconhecíveis. Dessa forma, o indivíduo desaparece em favor do ato, até mesmo do ato de terror. A França enfrenta o desafio de redefinir seu papel como nação acolhedora, sob o risco de desumanizar parcelas significativas de sua população e comprometer seu próprio tecido social e econômico.
Fonte: jornal.usp.br
