Com o encerramento do ciclo da Copa do Mundo masculina de 2026 e a consequente frustração do “sonho do hexa”, o cenário do futebol brasileiro se volta para um horizonte promissor e, ao mesmo tempo, desafiador: a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada no Brasil. Mais do que um mero evento esportivo, a competição representa uma oportunidade ímpar para redefinir a trajetória de uma modalidade marcada por talento, resistência e uma longa luta por reconhecimento.
Uma História de Luta e Talento
Nomes como Marta, Formiga, Cristiane, Sissi, Pretinha, Roseli, Kátia Cilene e muitas outras, de diferentes gerações, tecem a complexa narrativa do futebol feminino brasileiro. Uma história que, por grande parte do século XX, foi silenciada pela proibição oficial. Mesmo após o fim dessa restrição, a modalidade enfrentou décadas de precariedade: campeonatos inconsistentes, escassez de investimento, baixa cobertura midiática e a ausência de estruturas profissionais estáveis. O futebol feminino existia na paixão de suas praticantes, mas era institucionalmente frágil e subordinado.
Avanços e Desigualdades Persistentes
As últimas décadas testemunharam progressos significativos. A ampliação das competições, a crescente presença na televisão e em plataformas digitais, a obrigatoriedade de equipes femininas em clubes profissionais e o aumento da audiência internacional são sinais de uma mudança real. Contudo, essa evolução ainda se manifesta de forma desigual. A inclusão avança, mas o acesso a recursos, poder e reconhecimento não acompanha na mesma intensidade a expansão da visibilidade.
2027: O Legado Além do Campo
A Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil precisa ser encarada como uma chance decisiva para demonstrar a capacidade do país em transformar um megaevento em um legado concreto para o futebol das mulheres. Isso implica em ações fundamentais: fortalecer calendários de competições, expandir e qualificar as categorias de base, melhorar as condições de trabalho das atletas, investir na formação de treinadoras, árbitras e gestoras, e consolidar políticas públicas que garantam que a prática esportiva feminina não dependa apenas de iniciativas isoladas.
Mais que Simbolismo, Necessidade Material
Não se trata de exigir que o futebol feminino “prove” seu valor; isso já foi feito com maestria por gerações de jogadoras, muitas vezes sob condições extremamente adversas. O verdadeiro desafio é construir instituições que estejam à altura desse valor inquestionável. A Copa de 2027 tem o potencial de ser histórica não apenas por ser sediada no Brasil, mas por poder redefinir a relação do país com uma modalidade que, por tanto tempo, foi marginalizada. Que venha 2027, não apenas como celebração e beleza do jogo, mas como a oportunidade de converter o reconhecimento do futebol feminino em estrutura sólida, investimento contínuo e igualdade plena, assegurando o lugar que sempre lhe foi negado.
Fonte: jornal.usp.br
