O Brasil alcançou marcos importantes no combate à fome, mas a segurança alimentar vai além de ter o que comer. O desafio contemporâneo é garantir que a população tenha acesso contínuo a uma alimentação nutricionalmente adequada. Nesse cenário, entender o custo real de uma dieta saudável e como ele se distribui dentro das cidades tornou-se crucial para avançar no debate e na formulação de políticas públicas eficazes.
A Geografia do Prato: Entendendo a Metodologia
Com essa perspectiva, um projeto de extensão da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, intitulado “A geografia do prato: o custo da alimentação saudável dentro da cidade”, vem analisando o município de Pirassununga (SP). A pesquisa aplica a metodologia internacional Cost and Affordability of a Healthy Diet (CoAHD), desenvolvida pela Food and Agriculture Organization (FAO), integrando ensino, pesquisa e extensão para gerar conhecimento aplicado e subsídios concretos para a sociedade local.
Conduzido pelos professores Fernando Vinícius da Rocha e Vivian Lara S. S. Rossignolo, com a participação do graduando Vinícius Bueno Freire, o estudo realizou um extenso levantamento de preços em diversos estabelecimentos comerciais. Com base nesses dados, foi possível calcular o custo mínimo de uma dieta saudável em cada mercado, revelando diferenças expressivas.
O Impacto da Localização: Preços que Variam Dentro da Mesma Cidade
Os resultados iniciais são alarmantes: o custo mínimo diário por pessoa pode variar de aproximadamente R$ 9,00 a R$ 22,00, com a maioria dos valores entre R$ 13,00 e R$ 15,00. Essa variação decorre exclusivamente da escolha do local de compra, indicando que o mesmo padrão alimentar pode ter custos significativamente distintos na mesma cidade, dependendo do estabelecimento.
A análise se aprofundou ao representar esse custo no nível dos bairros, utilizando setores censitários do IBGE. A média ponderada pela população dos bairros foi estimada em R$ 13,52 por pessoa por dia, totalizando cerca de R$ 405,71 mensais. Contudo, essa média mascara desigualdades gritantes: entre os bairros de Pirassununga, o custo mensal da alimentação saudável variou de R$ 286,47 a R$ 501,30 por pessoa. Isso significa que a localização urbana tem um impacto significativo no custo da dieta, mesmo para um padrão nutricional idêntico.
A pesquisa também identificou que grupos alimentares como frutas, hortaliças e proteínas apresentam maior dispersão de preços entre os estabelecimentos, influenciando decisivamente o custo mínimo da dieta. O estudo permite, ainda, identificar quais alimentos são mais frequentemente selecionados na dieta de menor custo, caracterizando a alimentação saudável no contexto urbano local.
Alimentação Saudável: Um Luxo Inacessível para Muitos
Ao integrar os custos por bairro com informações socioeconômicas do Censo 2022 do IBGE, o estudo revelou um cenário preocupante. Em bairros com rendas mais baixas e famílias mais numerosas, o custo mínimo de uma cesta de alimentos saudáveis pode representar entre 50% e 100% do orçamento familiar. Na prática, isso significa que, para uma parcela da população, alimentar-se de forma saudável exige escolhas economicamente inviáveis, comprometendo a capacidade de cobrir outras necessidades básicas.
Essas evidências reforçam a necessidade de uma transição de uma segurança alimentar meramente quantitativa para uma segurança alimentar plena, que incorpore qualidade, diversidade e, crucialmente, acessibilidade econômica. Para os autores, é fundamental assegurar condições reais para que a população possa acessar os alimentos de forma adequada.
Da Pesquisa à Ação: Subsídios para Políticas Públicas
Além de sua robusta contribuição acadêmica, o projeto tem um caráter aplicado, servindo como base para o diálogo com o poder público municipal de Pirassununga. Articulado com a Rede All4Food, que integra academia, setor público e sociedade, a iniciativa busca transformar os sistemas alimentares locais por meio de uma lógica colaborativa.
A proposta é que os resultados subsidiem ações voltadas ao planejamento do abastecimento urbano, à redução das desigualdades territoriais e ao monitoramento contínuo dos preços dos alimentos. Ao cruzar dados de preços, organização espacial do varejo e características demográficas, a pesquisa evidencia que o desafio da alimentação saudável não se limita ao preço dos alimentos, mas a quem, dentro da cidade, enfrenta as maiores barreiras para uma dieta adequada.
“Nosso objetivo não é apenas medir o custo da alimentação saudável, mas também construir uma ferramenta de inteligência territorial para apoiar a tomada de decisões públicas. Quando identificamos onde estão as maiores barreiras econômicas ao acesso aos alimentos, podemos discutir políticas públicas de forma muito mais objetiva e baseada em evidências”, afirma um dos professores responsáveis pelo estudo. O projeto abre caminho para sua replicação em outros territórios, ampliando o impacto como ferramenta de apoio à tomada de decisão em políticas públicas alimentares.
Fonte: jornal.usp.br
