Futebol Além da Bola: Por Que a Paixão Argentina Desperta Ciúme no Brasil e a Urgência de Combater Racismo e Xenofobia Após a Copa

A paixão pelo futebol, muitas vezes, transcende o campo e a bola, mergulhando em questões sociais, políticas e históricas profundas. Essa realidade se impôs com força diante de um vídeo viral protagonizado por um “torcedor raiz” que, ao defender sua torcida pela Espanha e atacar a Argentina, disparou sua ira contra a “torcidinha intelectual”. Seu argumento colérico mirava aqueles que ousam misturar futebol com xenofobia, política, racismo, colonialismo e reparação histórica – conceitos caros às epistemologias do sul e ao decolonialismo. Tal manifestação, longe de ser isolada, nos obriga a refletir: o futebol é, de fato, muito mais do que um simples jogo.

A Reconfiguração da Paixão Brasileira

Lembrar da Copa de 1970, quando a canção “Pra frente Brasil” embalava o tricampeonato e a camisa da seleção – ainda de algodão, não dry fit – era vestida com orgulho, evoca um tempo diferente. Mesmo com o futebol sendo discutido como “ópio do povo” nos círculos de enfrentamento à ditadura, a conexão com o jogo estava entranhada na alma brasileira, assim como no Uruguai e na Argentina, onde a fantasia de torcer por uma nação suspensa dos horrores autoritários persistia a cada quadriênio. No entanto, em quase meio século, a relação brasileira com a seleção mudou drasticamente. A camisa amarela foi ressignificada, não mais pelo “futebol arte”, mas por um pseudo nacionalismo que se aproxima do entreguismo. Jogadores repatriados, em busca de mercados lucrativos, tornaram-se promotores de valores secundários: número de seguidores, tatuagens, carros e outros “troféus” que indicam prestígio, distanciando-se da identidade e subjetividade ligadas à bola.

O Espelho Argentino: Paixão e Inveja

Enquanto isso, a arquirrival Argentina protagonizou exibições de tirar o fôlego, com jogos decididos no limite. Liderados por dois “Lios” – um leão fora e outro dentro de campo – passionais e apaixonados pelo jogo e por seu significado, a seleção argentina fez brotar em muitos brasileiros sentimentos capazes de provocar drama e tragédia: o ciúme e a inveja. Ciúme de uma torcida genuinamente apaixonada, que os brasileiros só experimentam pagando; ciúme de uma alegria infantil perdida com a venda das almas ao mercado. E inveja de um futebol que já não se joga mais, de uma relação com as raízes culturais que os brasileiros perderam, e da qualidade de vínculo de um grupo desacreditado que chegou à disputa de um bicampeonato consecutivo – algo que o Brasil não vive há três décadas, e sabe-se lá quando voltará a vivenciar.

Para Além do Jogo: O Esporte como Reflexo Social

É nesse contexto que o vídeo inicial, que tentava descontextualizar a final, revela sua falha. Sempre que se tenta reduzir o esporte a uma mera competição, percebe-se a dificuldade de tratá-lo como tema de pesquisa e produção acadêmica. Sensível e popular, o futebol é facilmente capturado pela banalidade, reduzindo-o a grandes eventos e atletas a meros executores de habilidades motoras. Isso os impede de serem porta-vozes de temas globais, como foi Maradona, um dos ídolos dessa seleção argentina que joga não apenas para ser a melhor, mas para ecoar uma mensagem de vida e união: “gracias a la vida, el canto de ustedes que es el mismo canto, y el canto de todos que es mi propio canto”.

O Legado Pós-Copa: Combate ao Racismo e Xenofobia

Com o término do jogo, a Espanha sagrou-se bicampeã mundial, e à seleção argentina coube a medalha de prata, muitas vezes desprezada pelo peso da derrota. Passado o efeito inebriante de uma quase vitória, e lembrando a afirmação de Eduardo Galeano de que “o futebol é a única religião que não tem ateus”, é crucial aproveitar este momento. As questões fundamentais observadas neste campeonato, que são a continuidade de ações passadas, turvam a beleza das manifestações recentes. O racismo e a xenofobia, evidentes nas arquibancadas e ruas frequentadas pela apaixonada torcida argentina, precisam ser expostos e combatidos com a mesma paixão. A inegável força que esses torcedores têm para empurrar a seleção a vitórias improváveis poderia, e deveria, ser usada para reduzir e eliminar a desumanização ao seu redor. Ainda é tempo. Quem sabe em 2030, o espetáculo da torcida hermana possa ser ainda melhor, livre dessas sombras.

Fonte: jornal.usp.br

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