O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado, mas a estrutura de apoio e cuidado para a população idosa ainda engatinha. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o total de pessoas com 65 anos ou mais atingiu 10,9% da população, evidenciando uma transformação demográfica que exige atenção imediata.
A professora Helena Akemi Wada Watanabe, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, ressalta que o sistema de acolhimento não está preparado para essa realidade. “A disponibilidade de serviços de cuidados de longa duração, não só de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), mas também de centros-dia e de cuidados domiciliares é insuficiente”, afirma a pesquisadora, destacando as longas filas tanto em ILPIs públicas quanto privadas.
ILPIs: Acolhimento e Cuidado, Longe do Abandono
As ILPIs, também conhecidas como residenciais para pessoas idosas ou seniores, têm o objetivo de acolher e garantir suporte às necessidades de indivíduos com mais de 60 anos. Contrariando concepções equivocadas de abandono, esses locais oferecem estruturas e cuidados especializados. A continuidade do vínculo familiar é, inclusive, uma prioridade. “Hoje, a ILPI é um local em que o cuidado da família, dos parentes, continua lá dentro, ou seja, a pessoa idosa passa a ter visitas para que possam ter a continuidade do cuidado”, explica a professora Rosa Chubaci.
Expansão do Setor Privado e a Necessidade de Regulação
A carência de oferta pública e conveniada impulsionou o crescimento das residências seniores privadas. Historicamente ligadas à benemerência, as ILPIs filantrópicas enfrentam crescentes dificuldades econômicas, sendo superadas, por exemplo, no Estado de São Paulo, pelas instituições privadas com fins lucrativos. Para a professora Marilia Cristina Prado Louvison, também da Faculdade de Saúde Pública da USP, essa ampliação, pautada pela lógica de mercado, torna a oferta de equipamentos públicos junto ao SUAS (Sistema Único de Assistência Social) e ao SUS (Sistema Único de Saúde) muito incipiente. “É fundamental a regulação da oferta de serviços no sentido de garantir a qualidade e a preservação da autonomia e dignidade da pessoa idosa, evitando processos de institucionalização que levem à perda de direitos”, defende.
Fiscalização, Equipes e o Papel Crucial do Voluntariado
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o principal órgão fiscalizador das ILPIs, estabelecendo padrões mínimos através da Resolução da Diretoria Colegiada número 502 de 2021 (RDC 502/2021), que define regras de acessibilidade, áreas de convivência e protocolos de atenção à saúde. Apesar de serem consideradas serviços sociais, a maioria das ILPIs conta com profissionais de saúde, como enfermeiros, médicos e fisioterapeutas, além de gerontólogos, que coordenam as equipes multidisciplinares e entendem as necessidades específicas da pessoa idosa. Os residentes também têm acesso à rede do SUS para consultas e medicamentos.
No entanto, o engajamento da sociedade civil é um gargalo. A professora Rosa Chubaci enfatiza a escassez de voluntários. “Acho que a população precisa criar o hábito de fazer um voluntariado. Às vezes a pessoa fala assim: ‘Ah, mas eu não sei nada. Como que eu posso ser voluntária?’. Conversando, contando, lendo o livro para pessoas, pintando junto, leva desenhos para pintar com essas pessoas”, sugere, destacando que mesmo em instituições particulares, e especialmente nas públicas, o apoio voluntário é vital.
Respeito e Dignidade: Evitando a Infantilização
Além dos desafios estruturais, há a questão do tratamento. Rosa Chubaci alerta para a discriminação ao se referir a pessoas com mais de 60 anos apenas como “idoso”, defendendo o termo “pessoa idosa” para priorizar o indivíduo. Outro problema comum é a infantilização, muitas vezes motivada por carinho, mas que desconsidera a vasta experiência de vida. “Sabe, quando as pessoas, às vezes, não é por maldade, é por carinho, fala que o idoso volta a ser criança”, comenta. O uso de diminutivos, como “sapatinho” ou “comidinha”, é um exemplo dessa prática que anula a sabedoria e a história de quem viveu uma vida inteira.
Fonte: jornal.usp.br
