“Eu respondi de forma segura, mas com uma certa angústia – será mesmo que li sobre este assunto em algum lugar?” Essa foi a reflexão de um professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da USP após um congresso. Um sentimento que o impulsionou a explorar um universo que, até então, pertencia mais aos seus alunos: a Inteligência Artificial.
De volta para casa, a curiosidade venceu a hesitação. De forma quase “ilícita”, o professor recorreu ao Gemini, lançando uma pergunta complexa: “Há evidências científicas que comprovem que…”. A resposta veio de imediato, com precisão cirúrgica e, para seu alívio, semelhante à que ele havia dado no congresso. A sensação de “colar” em uma prova misturava-se com a lembrança de que a própria instituição oferecia a ferramenta, dissipando um pouco a culpa.
A Descoberta das Ferramentas de IA: Gemini e NotebookLM
Não satisfeito, o professor desafiou a IA: “quais artigos científicos você consultou para me responder?”. A “máquina” prontamente listou artigos e autores que ele próprio estudava como fontes de consulta. Impressionado, ele levou as referências ao Google Acadêmico, que lhe entregou os PDFs em segundos. Uma cena que contrastava drasticamente com o tempo em que dependia do sistema Comut, aguardando meses pela chegada de artigos via correio.
Sua incursão pelo mundo dos prompts não parou por aí. Ele descobriu o NotebookLM, outra ferramenta oferecida pela instituição, acessível junto à agenda do Google Meet e ao Classroom. Alimentando-o com os artigos fornecidos pelo Gemini e Google Acadêmico, o NotebookLM não só resumiu os textos, mas se ofereceu para criar um podcast, montar uma apresentação de slides ou, pasmem, um vídeo explicativo sobre o conteúdo.
Estupefato, ele experimentou quase todas as opções: resumos em áudio e vídeo, relatórios, quizzes, tabelas de dados, slides, mapas mentais e infográficos. Ao final dessa “viagem quase alucinógena”, um misto de frio na barriga, espanto e um intenso conflito existencial tomou conta do professor da Geração X, que, acostumado ao giz, via-se diante das facilidades da IA. A pergunta inevitável ecoava: “Será que vou ‘emburrecer’ com tudo isso?”.
O Dilema Existencial do Professor Geração X
Em sua mesa, os artigos impressos permaneciam, rabiscados e codificados por um sistema próprio de importância: grifos com caneta, com marcador, estrelas indicando a essencialidade do conteúdo para suas pesquisas. Mas agora, qual caminho seguir? Manter as anotações físicas ou ceder às inúmeras ferramentas de IA disponíveis no mundo acadêmico, como ChatGPT, Notion AI, Perplexity AI, Jasper AI, entre outras?
A sensação de estar fazendo algo proibido, pegando um atalho, persistia. Contudo, essa diminuição foi atenuada pela leitura de um artigo do professor Marcos Neira, do Jornal da USP, intitulado “Inteligência artificial no ensino de graduação: uma questão pedagógica, ética e curricular”. Neira argumenta que “o problema não está na existência da ferramenta, mas na maneira como ela interfere na relação da(o) estudante com a aprendizagem”.
Inteligência Artificial na Academia: Apoio ou Substituição?
O professor da USP expandiu a reflexão de Neira, adicionando a palavra “professor”: a dificuldade surge quando essas ferramentas deixam de funcionar como apoio à elaboração intelectual e passam a ocupar o lugar do trabalho que cabe ao estudante/professor realizar. A IA, portanto, deve ser um suporte, não um substituto do pensamento crítico e da produção intelectual.
O Futuro Chegou: Navegando na Nova Era Acadêmica
O futuro é inegável, e a academia não pode mais ignorá-lo. Cabe aos docentes e pesquisadores trilhar esse novo caminho de descobertas, aprendendo com os erros que, certamente, farão parte dessa nova fase. A Ciência, agora, também deve ser vista à luz da inteligência artificial. E quem compartilha essa experiência é um professor que vivenciou a era do mimeógrafo, da transparência e dos carrosséis de slides.
Apesar de todas as reflexões e dilemas, o professor abraça a nova realidade. O texto foi escrito por ele, mas o título, curiosamente, foi elaborado seguindo as sugestões da própria IA. O “velho professor” está oficialmente “on”, pronto para desbravar os desafios e oportunidades que a inteligência artificial oferece à educação.
Fonte: jornal.usp.br
